Anna Freud (1895-1982)

Anna Freud não foi apenas “a filha de Freud”; ela foi a mulher que transformou a sombra de um pai monumental em uma luz própria, dedicada ao universo infantil. Nascida em um ambiente onde o reconhecimento era reservado aos homens e enfrentando o sentimento de ser “indesejada”, Anna canalizou sua busca por afeto em uma coragem intelectual admirável. Impedida de cursar medicina, começou como professora primária, vivência que moldou seu olhar sensível e prático: ela percebeu que as crianças não eram apenas “mini-adultos”, mas seres com necessidades e defesas específicas. Ao tornar-se a fiel guardiã do legado de Sigmund Freud, ela não apenas cuidou dele em seus anos finais, mas expandiu a psicanálise para as escolas e berçários, acreditando que a educação e o acolhimento emocional deveriam caminhar de mãos dadas.
Sua trajetória é marcada por uma entrega profunda — seja cuidando dos filhos de sua grande amiga Dorothy Burlingham, seja fundando clínicas para crianças carentes durante a guerra. Anna Freud foi a pioneira que nos ensinou a importância de observar o “Eu” e seus mecanismos de defesa, oferecendo ferramentas para que os pequenos pudessem enfrentar suas angústias em um mundo muitas vezes rígido. Mesmo sob críticas e rivalidades teóricas, ela permaneceu firme em sua essência, provando que a psicanálise é, acima de tudo, uma prática viva de resiliência. Sua vida nos deixa uma lição atemporal: a de que é possível transformar nossas carências mais profundas em um propósito dedicado ao cuidado e à compreensão do próximo.

Referência: ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

Arminda Aberastury (1910 - 1972)

Arminda Aberastury nasceu em Buenos Aires em 24 de setembro de 1910, proveniente de uma família de comerciantes, do lado paterno, e de intelectuais, do lado de sua mãe. Teve Maximiliano Aberastury, renomado médico, como tio e o psiquiatra Frederico Aberastury, como irmão.

Em 1937, casou com o psiquiatra suíço Enrique Pichon-Rivière, com o qual teve três filhos: Enrique, Joaquin e Marcelo. Seu marido, nascido de uma família francesa com a qual emigrou para a Argentina fugindo do fascismo, estudou medicina em Buenos Aires e foi muito amigo de Frederico Aberastury, irmão de Arminda. Enrique Pichon-Rivière foi um dos pioneiros da psicanálise na Argentina e um dos fundadores da Asociación Psicanalítica Argentina (APA), em 1942. Foi analisado por Gama e fez supervisão com Carcamo e Melanie Klein.

Em 1953, Arminda Aberastury tornou-se analista didata da APA e durante vinte anos ensinou no Instituto e foi sua diretora, introduzindo o ensino da psicanálise de criança na formação do candidato a analista. Ela foi responsável pela disciplina de Psicologia da Criança e do Adolescente na faculdade de Filosofia e de letras da Universidade de Buenos Aires e divulgou a formação psicanalítica junto a pediatras, puericultores, educadores, médicos e odontólogos.

Conheceu Melanie Klein em 1952, em Londres, e manteve correspondência com ela durante anos. Ela traduziu a obra kleiniana Psychoanalyse dês Kindes (Psicanálise da Criança) para o castelhano e tornou-se porta voz de suas idéias.

Aberastury acreditava que a identidade genital é percebida desde os primeiros momentos da vida e depende da relação existente entre os pais entre si e entre eles e o filho ou filha. E faz da explicação da paternidade um complemento da teoria kleiniana.

Ela escreveu que a libido genital desenvolve-se antes do estágio anal, chamando esse período de “estágio genital primário”, situando-o entre o sexto e o oitavo mês de vida. Para ela essa fase do desenvolvimento é complementada pelo recrudescimento da pulsão genital, o desmame, a dentição, o desenvolvimento da musculatura, a aquisição da marcha, a linguagem, a ruptura da simbiose mãe-filho(a), explicando o aparecimento de sintomas e disfunções apreciados através das atividades lúdicas.

Escreveu cento e quarenta e cinco escritos que foram publicados nos números três e quatro da revista da APA do ano de 1973, além de publicações em outros países e no International Journal of Psychoanalysis.

Arminda Aberastury foi uma mulher de rara beleza, de cabelos muito negros, o que lhe valeu apelido de La Negra. Na década de setenta foi atingida por uma doença de pele que a desfigurou e a levou a tal sofrimento que decidiu por fim aos seus dias aos 62 anos. Conta-se que desde a juventude ela sofria de melancolia.

Bibliografia

  • Aberastury, Arminda. Adolescência. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.
  • Aberatury, Arminda. Psicanálise de Criança: Teoria e Técnica. Porto Alegre: Artmed, 1992.
  • Aberastury, Arminda e Sala, Eduardo J. A paternidade no enfoque psicanalítico. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985.
  • Kaufmann, Pierre. Dicionário Enciclopédico de Psicanálise: o legado de Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993.
  • Mijolla, Alain de. Dicionário Internacional da Psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 2005. pp18-19.
  • Roudinesco, Elisabeth e Plon, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. p1.

Barbara Low (1874-1955)

Barbara Low nasceu como Alice Leonora Loewe em 1874, em Londres, sendo a caçula de onze filhos em uma família judia. Seu pai, Maximilian Loewe, participou da revolução húngara de 1848 e fugiu para a Inglaterra após o fracasso do movimento, enquanto sua mãe, Therese Schacherl, era filha de um rabino austríaco. Barbara frequentou a Camden School for Girls, de Mary Buss, e posteriormente ingressou na University College London. Após qualificar-se como professora no Maria Grey Training College, lecionou durante vários anos em escolas para meninas e em uma escola para meninos. Entre 1913 e 1915, ministrou aulas de educação, literatura e história no London County Council Training College for Teachers, em Fulham, sendo também membro do Partido Trabalhista e da Fabian Society, uma organização intelectual de esquerda.

O primeiro contato de Barbara Low com a psicanálise ocorreu por meio de David Eder, marido de sua irmã Edith e cofundador da Sociedade Psicanalítica de Londres em 1913. Em 1919, ela tornou-se a única mulher entre os membros fundadores da Sociedade Psicanalítica Britânica. Realizou análise com Hanns Sachs, em Berlim, e análise didática com Ernest Jones, em Londres. Curiosamente, foi o escritor D. H. Lawrence, um amigo a quem ela própria introduziu à psicanálise, quem lhe presenteou com o manuscrito de Sea and Sardinia, cuja venda permitiu que ela custeasse sua análise de formação.

Impressionada com a policlínica psicanalítica de Berlim, Barbara Low empenhou-se na criação de uma organização semelhante em Londres voltada ao tratamento gratuito de pacientes sem recursos, a qual foi inaugurada em 1926. Assim como Susan Isaacs e Nina Searl, ela interessava-se especialmente pela aplicação da psicanálise à educação, publicando diversos artigos sobre o tema no International Journal of Psychoanalysis. Ela rejeitava as ideias de Melanie Klein sobre a psicanálise infantil e, durante as controvérsias entre Freud e Klein, foi uma apoiadora ferrenha de Anna Freud, cuja obra Einführung in die Psychoanalyse für Pädagogen (Introdução à Psicanálise para Educadores) ela traduziu para o inglês.

Em 1920, foi publicado seu livro Psycho-Analysis: A Brief Account of the Freudian Theory. Nessa introdução destinada ao público em geral, ela cunhou o termo “princípio do nirvana”, que foi reconhecido e utilizado por Sigmund Freud em Além do Princípio do Prazer. Para Low, o termo significava o desejo de retornar a um estágio pré-natal de onipotência, onde não existem desejos insatisfeitos — ou, nas palavras de Freud, o esforço para reduzir, manter constante ou remover a tensão interna resultante de estímulos.

Além de suas atividades no Instituto Psicanalítico, onde atuou como bibliotecária por vários anos, Barbara Low foi codiretora da editora Imago Publishing Company e atuou como palestrante e terapeuta no Instituto para o Estudo e Tratamento da Delinquência. Durante seus últimos anos, retirou-se da vida pública e viveu em Hampstead Garden Suburb com sua irmã mais velha, Florence, que, assim como Barbara, nunca se casou.

Betty Joseph (1917 - 2013)

A inglesa Betty Joseph, analista didata da Sociedade Britânica de Psicanálise, formou-se inicialmente em Serviço Social e trabalhava como assistente social psiquiátrica durante e depois da Segunda Guerra Mundial. À época estava em análise com Michael Balint na cidade de Manchester, Inglaterra, e não pensava em fazer a formação psicanalítica. Foi então que seu analista resolveu mudar-se para Londres, para estar mais próximo dos colegas da Sociedade Britânica de Psicanálise, e convenceu-a de ir também. Joseph iniciou então sua formação psicanalítica em Londres em 1949.

Mais tarde, já iniciada a formação em Londres, passou a se analisar com Paula Heimann e encontrou em Hannah Segal uma interlocutora com quem discutir seus casos clínicos. A dupla permanece em sintonia até os dias de hoje.

Joseph, junto com Bion, Segal e Rosenfeld, deu continuidade ao trabalho de Melanie Klein, utilizando seus conceitos na abordagem clínica e pesquisando o uso da projeção e da identificação projetiva em seus estudos. Ela se interessa especialmente por pacientes considerados difíceis e resistentes. Publicou vários trabalhos a respeito de pacientes que procuram a análise com a vontade consciente de mudar suas vidas, mas que parecem incapazes de realizar mudanças.

Ela não se detém às comunicações verbais do paciente e explora o conceito de contratransferência, levando sempre em conta o estado mental do analista durante as sessões. Acredita que as interpretações possíveis de provocar mudanças psíquicas são aquelas baseadas na transferência e na contratransferência. Em outras palavras, explora a relação analista-paciente e o modo pela qual é vivenciada por cada uma das partes.

Em 1975 publicou O paciente de difícil acesso, um trabalho de grande importância no desenvolvimento da visão de Joseph e uma referência para vários analistas até hoje. Nesse trabalho, descreve casos que aparentemente vão bem, há uma atitude de cooperação do paciente e o analista se vê em uma situação confortável. Para a autora, é justamente nesse momento que o analista deve se perguntar se está havendo mudanças, pois talvez não haja transformações no caso. Sua teoria é de que a parte invejosa da personalidade de alguns pacientes ataca sua parte mais saudável e capaz de entendimentos e mudanças. Segundo Joseph, este splitting pode ser percebido na transferência e na comunicação não verbal.

Joseph relata as dificuldades de se trabalhar nesses casos, uma vez que o paciente procura meios inconscientes de afetar e pressionar o analista, comprometendo sua capacidade de pensar e atuar como psicanalista e não promovendo mudanças no precário equilíbrio mental estabelecido pelo paciente.

Em 1981 escreveu O vício pela quase morte, em que fala sobre uma das manifestações do instinto de morte. Joseph propõe uma força poderosa de autodestruição que leva o paciente a se ver como alguém que não pode ser ajudado. A autora descreve como o pensamento de certos pacientes pode ser dominado por fantasias sadomasoquistas. Com isso, o paciente pode usar seu sofrimento para triunfar sobre aspectos mais saudáveis de sua personalidade. Há um ataque sádico a tudo que seja mais constritivo, tanto no próprio paciente, quanto no analista.

Dentre suas contribuições mais recentes, está Transferência: a situação total, de 1985. Nesta obra, Joseph desenvolve a noção de Klein de que a transferência inclui uma situação total transferida do passado para o presente, assim como emoções, defesas e relações objetais.

Cida Bento (1952)

Maria Aparecida da Silva Bento (São Paulo, São Paulo, 1952). Ativista, psicóloga. Nasce em 1952, na zona norte de São Paulo. Doutora em psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP) e cofundadora do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), é uma das mais relevantes intelectuais e ativistas do movimento negro brasileiro contemporâneo. 

Pesquisadora das relações entre raça, racismo e psicologia, ela se torna referência obrigatória nos estudos sobre branquitude no Brasil. Como ativista, participa das principais manifestações e campanhas de igualdade racial no país. Sua produção intelectual no debate público e na imprensa brasileira é fundamental para compreender e pensar a superação das desigualdades econômicas e raciais, já que dois pilares do desenvolvimento social são objeto de sua atuação e reflexão: a educação e o trabalho.

Como psicóloga ocupacional no setor privado, ao ocupar o cargo de executiva na área de recursos humanos, Cida Bento funda, em 1990, com Ivair Augusto Alves dos Santos (1950) e Hédio Silva Júnior (1961), o CEERT. O instituto é criado com o objetivo de produzir pesquisas, assessoria e projetos de intervenção no combate às discriminações raciais e de gênero, especialmente voltados para instituições como escolas, empresas e órgãos públicos. Nos primeiros anos após a fundação do CEERT, participa como coordenadora da área de combate à discriminação racial no Conselho Estadual de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra (CPDCN).

Em 2001, Cida Bento integra a delegação brasileira na 3ª Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, em Durban, África do Sul. Representando o CEERT, ao lado de outras mulheres negras líderes de organizações como Geledés: Instituto da Mulher Negra, Criola e Fala Preta, tem atuação fundamental para a ativa participação da delegação brasileira no evento e nas conquistas que se seguiram, abrindo espaços para a luta contra a discriminação racial na sociedade brasileira, com base nos compromissos assinados naquela ocasião.

À frente do CEERT, Cida Bento coordena iniciativas como o Prêmio Educar para a Igualdade Racial e de Gênero: experiências de promoção da igualdade étnico-racial em ambiente escolar, iniciado em 2002 e que conta com sete edições, com o objetivo de identificar e apoiar boas práticas pedagógicas e de gestão para valorização da diversidade nas escolas. Na área de educação, especialmente infantil, e relações raciais, realiza diversas pesquisas, publica livros e artigos em revistas acadêmicas e periódicos.

Além do interesse sobre educação e relações raciais, o mercado de trabalho é uma preocupação constante na produção intelectual de Cida Bento. A discriminação racial no mercado de trabalho é tema de sua dissertação de mestrado em psicologia social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), em 1992, e da tese de doutorado em psicologia escolar e do desenvolvimento pela USP, em 2002. Sua tese, Pactos narcísicos no racismo: branquitude e poder nas organizações empresariais e no poder público, analisa a discriminação racial no mercado de trabalho, com enfoque para o grupo que define como “racialidade branca”. Com abordagem inovadora em sua pesquisa, centralizada na categoria branquitude, Cida abre novas perspectivas para o estudo das relações raciais no Brasil.

Dos muitos artigos em periódicos, revistas acadêmicas, livros e capítulos de livro publicados, destacam-se os livros: Psicologia social do racismo: estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil (2002), organizado com Iray Carone, Cidadania em poreto e branco: discutindo as relações raciais (2002) e Identidade, branquitude e negritude: contribuições para a psicologia social no Brasil (2014).

Além de sua atuação no CEERT, Cida Bento também tem passagem por diversos conselhos consultivos e deliberativos de empresas e fundações. Atualmente, integra o Conselho Deliberativo do Instituto Ethos. É professora visitante na Universidade do Texas em Austin, nos Estados Unidos, faz parte do Grupo Assessor da ONU Mulheres, da Comissão de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia e da Comissão de Direitos Humanos do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo. Também atua como conselheira titular do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA).

Esther Bick (1901 - 1983)

Desenvolveu o método de observação da relação mãe-bebê, que consiste em que o observador esteja aberto para receber da dupla mãe-bebê o que vier, ou seja, não há hipótese de trabalho ou fatos a serem observados. Para ela, o fundamental é o observador ter uma postura de que nada sabe, pois se estiver com tudo pronto dentro da sua mente, nada observará.

Esther Bick acreditava que é necessário saber observar para ser psicanalista. Segundo ela, as nossas primeiras experiências emocionais são sentidas primariamente pelo corpo. Inicialmente, o bebê necessita de que as partes de sua personalidade sejam mantidas unidas por um objeto externo que seja continente.

Esse, por sua vez é experimentado pelo bebê concretamente como uma pele. Quando o bebê vive experiências de total desamparo, na ausência desse objeto continente, é assolado por ansiedades catastróficas que correspondem a vivências de estar desmoronando e se esvaziando.

Para lidar com isso, o seu recurso é colar-se à face externa dos objetos – identificação adesiva. Ela associou que, quando há o desenvolvimento precoce de certas aptidões musculares ou verbais do bebê, existe da parte dele uma tentativa de compensar a função defeituosa do continente. Bick deu a esse mecanismo o nome de segunda pele.

Fonte: ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

Élisabeth Roudinesco (10 de setembro de 1944)

Élisabeth Roudinesco é uma historiadora e Psicanalista francesa amplamente reconhecida como uma das maiores especialistas na história da psicanálise. Ela é famosa por suas biografias detalhadas de figuras centrais do movimento psicanalítico e por suas críticas à medicalização excessiva da saúde mental na sociedade contemporânea. 

Roudinesco é autora de uma vasta obra que conecta psicanálise, história e medicina. Entre seus trabalhos de maior destaque estão:

  • Biografias Definitivas: Escreveu obras fundamentais sobre Sigmund Freud (como Freud: No seu tempo e no nosso) e Jacques Lacan.
  • Dicionário de Psicanálise: Coautora, junto a Michel Plon, de um dicionário referencial para estudantes e profissionais da área.
  • História da Psicanálise na França: Uma análise detalhada do desenvolvimento das ideias psicanalíticas no contexto francês.
  • Medicalização da Existência: Roudinesco critica a tendência da medicina moderna de tratar angústias existenciais inerentes à vida humana quase exclusivamente com psicotrópicos, o que, segundo ela, diminui a importância da subjetividade individual.
  • Psicanálise como Teoria do Desejo: Defende que a psicanálise não deve ser uma prática de normalização, mas sim um espaço para o sujeito confrontar seu próprio desejo e inconsciente.
  • Engajamento Intelectual: Desde o final da década de 1990, ela tem sido uma voz ativa em debates sobre laicidade, genética, clonagem e políticas de saúde mental, frequentemente defendendo a psicanálise contra ataques de abordagens puramente biológicas.

Emma Eckstein (1865-1924)

Emma Eckstein tornou-se conhecida sobretudo como uma das pacientes mais importantes do início da carreira de Sigmund Freud, mas também pode ser considerada a primeira psicanalista, uma vez que, após sua própria análise, passou a atuar como psicoterapeuta sob a orientação dele. Nascida em Gaudenzdorf como a quarta de nove irmãos, Emma pertencia a uma respeitada família judia que mantinha laços de amizade com Freud. Seu pai, Albert Eckstein, era proprietário de uma fábrica de pergaminhos, cuja gestão foi assumida por sua mãe, Amalie Eckstein, após a morte precoce do patriarca em 1881. Emma permaneceu solteira e viveu por muitos anos com a mãe, engajando-se, ao lado de sua irmã mais velha Therese Schlesinger, no movimento feminista radical-burguês de Auguste Fickert e apoiando a fundação do primeiro clube feminino de Viena em 1900.

Em 1892, ela buscou tratamento com Freud devido a diversos transtornos diagnosticados como histéricos, sendo que a fase decisiva de sua análise ocorreu entre 1895 e 1897. No final de 1894, Freud consultou seu amigo, o otorrinolaringologista Wilhelm Fließ, que atribuiu as queixas abdominais de Emma a um complexo de sintomas chamado “neurose reflexa nasal”, o qual ele tentava tratar cirurgicamente a partir de pontos genitais no nariz. A operação realizada em 1895 resultou em um desastre, pois Fließ esqueceu uma tira de gaze na cavidade nasal da paciente; Emma precisou ser operada novamente e quase perdeu a vida. Esse evento trágico serviu como pano de fundo fundamental para o famoso sonho de Freud sobre “A Injeção de Irma”. Além disso, a análise de Eckstein forneceu ao médico o material clínico para o desenvolvimento de sua teoria da realização de desejos e, por fim, para a revisão de sua teoria da sedução.

A partir do final de 1897, após concluir sua análise, Emma Eckstein começou a tratar pacientes neuróticos utilizando a técnica freudiana. Ela publicou diversos artigos sobre questões femininas e educacionais, incluindo uma resenha da obra “A Interpretação dos Sonhos” no jornal Arbeiter-Zeitung em 1900, além de textos sobre educação sexual nos quais discutia os perigos da masturbação infantil e dos devaneios em moças jovens, defendendo a importância do esclarecimento sexual. A partir de 1905, passou a compartilhar a residência com sua irmã viúva Therese, sua mãe Amalie e seu irmão Gustav. Após uma cirurgia ginecológica por volta de 1910 — que Freud considerou uma decisão equivocada e fatal —, ela nunca se recuperou totalmente, permanecendo acamada até sua morte, causada por uma hemorragia cerebral. Sua produção intelectual inclui escritos selecionados como “A preparação da mulher para o trabalho da vida” (1899), “Uma questão educacional importante” (1900), “A vida psíquica no sonho” (1900) e o livro “A questão sexual na educação da criança” (1904), além de obras posteriores como “Sobre aranhas e formigas” (1919).

Eugénie Sokolnicka (1884-1934)

Nascida em Varsóvia em 1884 (embora outras fontes indiquem 1876), Eugenia Sokolnicka foi a primeira psicanalista praticante na França e uma pioneira na análise infantil. Ela descendia de uma família de intelectuais judeu-poloneses que lutaram ativamente pela libertação da Polônia, sendo sua mãe, Paulina Flejszer, homenageada com um funeral de Estado por seu papel no Levante de Janeiro de 1863, enquanto seu pai, Maurycy Kutner, atuava como procurador de um grande banco. Em 1899, Eugenia mudou-se para Paris para estudar biologia na Sorbonne, obtendo sua licenciatura em 1902, época em que também frequentou as aulas de psicologia de Pierre Janet no Collège de France. Durante esse período, engajou-se na seção parisiense do Partido Socialista Polonês, onde conheceu Michal Sokolnicki, um proprietário de terras e futuro historiador e político, com quem se casou em 1903 após retornarem a Varsóvia. Nos anos seguintes, ela se manteve ativa na Organização Nacional Polonesa e na liga de mulheres local, chegando a escrever um manual de história natural em polonês.

Sua trajetória na psicanálise começou efetivamente em 1911, quando iniciou um estágio na clínica psiquiátrica Burghölzli, em Zurique, sendo admitida no grupo local da Associação Psicanalítica Internacional no ano seguinte. É provável que tenha sido aluna ou analisanda de Carl Gustav Jung, mas, após a ruptura entre este e Sigmund Freud, ela seguiu para Viena e iniciou uma análise com o próprio Freud em 1914. No entanto, o tratamento durou apenas três meses, pois Freud a interrompeu por não simpatizar com ela. Mesmo assim, Sokolnicka tornou-se membro da Sociedade Psicanalítica de Viena em 1916, período em que também se separou de seu marido. Seguindo um conselho de Freud, mudou-se para Munique e, posteriormente, passou os anos da Primeira Guerra Mundial entre Varsóvia e Zurique. Em 1917, tentou fundar uma associação psicanalítica em sua terra natal, mas não obteve sucesso. Já em 1920, em Budapeste, realizou uma análise de quase um ano com Sándor Ferenczi, que a descreveu como uma profissional sensível e talentosa, embora tenha diagnosticado nela um forte sentimento de superioridade e tendências depressivas.

Ao retornar à França em 1921, Sokolnicka conseguiu impulsionar o movimento psicanalítico no país. Como a única analista didata inicial, e mais tarde colaborando com Rudolph Loewenstein, ela formou a primeira geração de psicanalistas franceses, incluindo nomes como René Laforgue e Sophie Morgenstern. Entre 1922 e 1923, lecionou na École des Hautes Études Sociales e trabalhou no hospital psiquiátrico Sainte-Anne. Em 1926, consolidou sua liderança como membra fundadora e vice-presidente da Société Psychanalytique de Paris. Sua influência estendeu-se ao meio literário, onde intelectuais como André Gide se reuniam com ela para discutir psicanálise. Gide, inclusive, baseou a personagem “Doutora Sophroniska” de seu romance Os Moedeiros Falsos nela, fazendo alusão à famosa cura que Sokolnicka realizou em um menino de dez anos que sofria de fobia de toque e rituais obsessivos. Nesse caso clínico, ela desenvolveu o conceito de “análise mínima”, focado no desaparecimento imediato dos sintomas.

Apesar de seu talento clínico, sua carreira começou a declinar em 1923, quando perdeu seu posto no hospital Sainte-Anne por pressão do novo diretor, que rejeitava analistas sem formação médica. Restrita ao consultório particular, viu seu número de pacientes diminuir drasticamente ao longo dos anos. No início da década de 1930, sua influência foi eclipsada por Marie Bonaparte, que assumiu o papel de representante oficial de Freud na França. Isolada, enfrentando dificuldades financeiras, o sentimento de desenraizamento e a crescente ameaça do nacional-socialismo, Eugenia Sokolnicka sucumbiu à depressão e tirou a própria vida em 1934.

Françoise Dolto (1908–1988)

foi uma pediatra e psicanalista francesa reconhecida mundialmente por suas contribuições revolucionárias à psicanálise infantil e à compreensão do desenvolvimento emocional das crianças. Referência incontornável na clínica com crianças; revolucionou a escuta da infância.

Hanna Segal (1918 - 2011)

Psiquiatra e psicanalista, Hanna Segal nasceu em 1918, em Lodz, na Polônia. Desde a adolescência apaixonou-se pela psicanálise e descobriu que seu exercício poderia satisfazer não só objetivos terapêuticos, mas também auxiliar na compreensão das ciências humanas. Em 1939, fugindo da perseguição nazista, prosseguiu seus estudos de medicina em Edimburgo. Profunda conhecedora da obra de Freud e de Melanie Klein, acabou chegando a Londres onde iniciou sua formação em psicanálise na Sociedade Britânica de Psicanálise e sua análise com Melanie Klein, obtendo a qualificação de analista em 1945. Aos 32 anos de idade já era analista didata.

Hanna Segal escreveu muito sobre a obra de Melanie Klein e seus textos tornaram-se referência básica para a compreensão das teorias kleinianas.

É uma das maiores psicanalistas clínicas contemporâneas e, utilizando técnicas baseadas na obra de Freud e de Melanie Klein, tem grande interesse pelo trabalho com pacientes que apresentam as mais graves formas de psicopatologia. Sua obra e experiência clínica produziram importantes contribuições à técnica psicanalítica, especialmente no que diz respeito a seus estudos sobre fantasia e sua compreensão e aprofundamento do processo de simbolização, onde faz uma distinção importante entre equação simbólica (baseada no funcionamento na posição esquizo-paranóide) e o símbolo (que é alcançado por meio do funcionamento na posição depressiva).

Seus ensaios sobre fantasia, criatividade e formação de símbolos representam marcos na literatura sobre esses temas, uma vez que não tratam de psicanálise aplicada, o que levou a autora a ser considerada não apenas psicanalista, mas também pensadora e escritora de grande importância, tendo tornado a psicanálise acessível a um público mais amplo pela amplitude e profundidade de seus interesses.

Segal, hoje aos 90 anos de idade, foi presidente da Sociedade Britânica de Psicanálise, professora na Universidade de Londres e vice-presidente da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). Dedicou-se ainda a causas sociopolíticas e é conhecida por seu entendimento e opiniões sobre o atentado de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, e a invasão do Iraque em 2003.

Em português estão publicados os seguintes livros de sua autoria:

  • Introdução à obra de Melanie Klein
  • A obra de Hanna Segal
  • Sonho, fantasia e arte
  • Psicanálise, literatura e guerra

Além destas obras, o leitor encontra ensaios de Hanna Segal nos livros Melanie Klein hoje, editado por Elizabeth Bott Spillius, e Melanie Klein: evoluções.

Isildinha Baptista

Isildinha Baptista Nogueira é psicanalista e vive em São Paulo. É mestre em Psicologia Social pela PUC-SP e doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP. Fez sua formação nos Ateliers de Psychanalyse, em Paris, com Radmila Zygouris (uma das fundadoras da instituição).

Joyce McDougall (1920 - 2011)

Neozelandesa radicada na França, desde os anos 50, é reconhecida internacionalmente por ser uma psicanalista de casos “difíceis” e investigar temas da clínica contemporânea. Autora de seis livros, traduzidos para cerca de dez idiomas, vários capítulos de livros, diversos artigos e conferencista internacional. Seu reconhecimento ultrapassou os círculos psicanalíticos e em 1992 foi convidada por Dalai Lama para participar em Dharmasala, na Índia, do seminário Sleeping, dreaming and dying: an exploration of consciousness with the Dalai Lama, que reuniu outros seis conferencistas internacionaisi.

O pensamento da autora é construído por meio de “metáforas teatrais” que permitem visualizar cenas sutis do processo psicanalítico e do funcionamento psíquico de seus pacientes. Nesse espaço, cria e desenvolve conceitos originais, tais como: neo-sexualidade, adicção, sexo-adicto, normopatia, desafetação, entre outros.

A originalidade do “método McDougall” está associada a uma “teorização flutuante” como contrapartida da “associação livre” do analisando, inseparável dos movimentos transferenciais e contratransferenciais presentes no tratamento psicanalítico; onde a apresentação dos relatos clínicos e a teorização estão de tal forma inter-relacionados que as novas contribuições da autora emergem como fatos naturais de um desenvolvimento teórico e clínico.

Vida

McDougall nasceu em Dunedin, na Nova Zelândia, para onde seu avô paterno, um inglês chamado Carrington, imigrou no final do século XIX. De grande talento para a pintura, inicialmente seu avô tornou-se professor em uma pequena escola na área rural. No final de cada ano, organizava com os alunos um espetáculo teatral. As peças tornaram-se uma tradição familiar e passaram a ser organizadas pelos filhos e netos de Carrington.

Na adolescência, aos 17 anos, Joyce conheceu a Psicopatologia da vida cotidiana, de Freud, e inicia seu percurso na psicanálise. O primeiro passo foi cursar psicologia na Faculdade de Artes e Ciências da Universidade de Otago, onde leu todas as obras de psicanálise da escolaii. Na graduação, teve acesso às palestras de Donald Winnicott, destinadas às mães e transmitidas pela rádio BBC.

O teatro permeia a vida e as obras de Joyce McDougall. Encenando uma peça de Dylan Thomas, no clube de teatro da Universidade, como atriz, conheceu o seu primeiro marido, Jimmy McDougall.

Em 1950, acompanhando o seu marido que buscava melhores condições de trabalho, Joyce mudou-se para Londres, com os seus dois filhos, e iniciou a formação psicanalítica na Sociedade de Psicanálise Britânica. Na Inglaterra já revelou uma habilidade que teria efeitos em toda sua trajetória teórica e clínica: a capacidade de transitar pelos conflitos políticos e teóricos presentes nos grupos psicanalíticos e ser respeitada por todos os seus pares, sem necessariamente filiar-se a quaisquer desses grupos.

Vale notar que nesse momento a Sociedade Britânica estava fracionada entre os seguidores de Anna Freud e os de Melanie Klein; mas na ocasião da escolha de seu analista didata, McDougall preferiu um membro do Middle Group. Nesse período também trabalhou como psicóloga de crianças no Hospital Maudsley. Ainda mais, iniciou o curso de formação teórica com Anna Freud e acompanhou Winnicott em visitas ao Hospital Infantil de Paddington Green.

A vida em Londres e a formação psicanalítica caminhavam bem, com uma única exceção: seu marido não encontrava trabalho regular. Em 1953, ele recebeu uma proposta da UNESCO para trabalhar em Paris, o que implicou nova mudança para os McDougall’s.

Na França, Joyce retomou sua formação e começou sua análise com Marc Schlumberger seguida mais tarde de uma segunda análise com Michel Renard. Seguiu os seminários de Maurice Benassy, com quem fez também supervisão, e participou de grupo de terapia de adolescentes sob a direção de René Diatkine.

Entre 1953 e 1954, enquanto Joyce McDougall estava em formação, a Sociedade Psicanalítica de Paris (SPP) viveu uma profunda contenda envolvendo Sancha Nacht e Jacques Lacan, que levou à cisão da Sociedade. Nesse momento, Joyce procurou os dois psicanalistas para conhecer os argumentos que fundamentavam tal conflito. Não se convenceu das idéias apresentadas por seus interlocutores e seguiu sua formação no Instituto da SPP, ao mesmo tempo em que participou regularmente dos Seminários de Lacan – que os proferia, àquela altura, na Sociedade Francesa de Psicanálise – sem filiar-se a esse grupo teórico.

Em 1961, McDougall foi eleita membro titular da Sociedade Psicanalítica de Paris, onde ocupou várias funções institucionais e é membro de várias associações e instituições psicanalíticas. Na França, foi uma “embaixadora” da psicanálise inglesa, convidou Hanna Segal, John Klauber e Donald Winnicott para proferirem conferências na capital francesa.

Sua vida familiar também sofreu mudanças. Os dois filhos casaram e foram morar na Inglaterra e no final dos anos 50 conheceu seu segundo marido, Sidney Stewart, psicanalista e doutor em literatura, que faleceu em março de 1998.

Obra

As obras de Joyce McDougall revelam uma maneira singular de abordar a clínica psicanalítica. Outra peculiaridade da autora é apresentar seus relatos clínicos com a permissão de seus pacientes.

Na sua produção teórica plural – mas não eclética – McDougall desenvolveu conceitos freudianos e aprofunda noções de Klein, Margareth Mahler e Bion; teve também uma interlocução profícua com Pierre Marty e colaboradores da Escola de Psicossomática de Paris, Janine Chasseguet-Smirgel, André Green, entre outros. Mas na confecção de suas obras, ela tem a companhia, sempre presente, de dois pensadores com percursos diferentes: D. Winnicott e Piera Aulagnier. Com esta autora, Joyce manteve uma sólida amizade e parceria teórica por mais de quatro décadas.

Sua primeira obra, em colaboração com Serge Lebovic, foi editada em 1960, Un cas de psychose infantile: étude psychanalytique, reeditado sob o título Dialogue avec Sammy: contribution à l’étude de psychose infantile (Diálogo com Sammy). Na sua tradução para o inglês teve o prefácio de D. Winnicott. É o relato clinico de uma análise de um garoto psicótico americano, de 9 anos, que Joyce atendeu ao longo de oito meses em 1954.

Nessa análise, a autora tece algumas importantes considerações acerca da psicose, mas também já elabora noções teóricas que estarão presentes em toda a sua obra futura; afirma, por exemplo, que o sintoma é uma construção singular e dramática que tem o objetivo de permitir a sobrevivência psíquica do indivíduo e tentativas de cura de si mesmo.

Após a publicação da análise de Sammy seguiram-se quatros livros: Em defesa de uma certa anormalidade – Teoria e clínica psicanalítica (1978), Teatros do Eu (1982), Teatros do corpo – O psicossoma em psicanálise (1989), As múltiplas faces de Eros – Uma exploração psicanalítica da sexualidade (1995).

Esses trabalhos assumem uma unidade na metáfora teatral. Em Teatros do corpo, utiliza a alegoria para compreender os fenômenos psicossomáticos de um ponto de vista essencialmente psicanalítico vis-à-vis o da abordagem psicossomática, que tem como expoente Pierre Marty. Tais fatos, segundo a autora, estão relacionados às vicissitudes e “falhas” no processo de individuação de cada pessoa que formatam a subjetividade de cada um.

Nesse livro, em especial no segundo capítulo, denominado A matriz do psicossoma, Joyce desenvolve as origens da somatização, um modo de defesa arcaico, anterior à constituição da linguagem, resultado de falhas no processo de internalização que constroem a identidade subjetiva. A somatização, então, pode preencher os vazios abertos pela tensão – inevitável na criança – entre o desejo de fusão e o de individuação e apropriação psíquica do seu próprio corpo.

Dessa forma, a somatização está associada à economia do afeto. O que vale dizer que tais pacientes estão mais próximos de um “agir arcaico” sob a forma de uma descarga direta ou explosão somática; expulsando do psiquismo – e derivando-os para o corpo – as percepções e fantasias ou pensamentos que suscitam afetos insuportáveis; os quais estão associados às vivências traumáticas e precoces presentes no desenvolvimento infantil.

Joyce denominou esse mecanismo de defesa de desafetação, que deve se agregar aos processos clássicos descritos por Freud: recalque, denegação e recusa. Tal mecanismo, também, é a chave para compreender outro tema da agenda de pesquisa de Mcdougall: a normopatia. Noção, que no léxico da autora, é um sintoma de sofrimento psíquico, no bojo de uma organização patológica específica.

Em linhas gerais, esse quadro nosológico revela um paciente adaptado à realidade externa, mas que apresenta uma impossibilidade estrutural de entrar em contato com a sua própria vida subjetiva. O que estabelece barreiras, algumas incontornáveis, e impasses na evolução do processo analítico. Esse tema foi abordado no livro Em defesa de uma certa anormalidade.

Em As múltiplas faces de Eros, Joyce dá continuidade às idéias apresentadas em Teatros do corpo, agora destacando aspectos da sexualidade humana e inovando conceitualmente em noções que permitem ampliar a compreensão teórica e clínica dos fenômenos sexuais. A autora inicia o prefácio com a seguinte assertiva: A sexualidade humana é inerentemente traumática. Nesse sentido, amplia e desenvolve a noção de trauma, sem rupturas com as idéias freudianas. Acontecimentos cotidianos e vulgares da existência humana podem ser traumáticos – o contato com a alteridade do outro, a descoberta da diferencial sexual etc – e não apenas os fatos excepcionais que devem ser considerados como tal.

O desenvolvimento da sexualidade também é marcado pelos conflitos e eventos traumáticos precoces que remontam ao momento fusional da mãe com o bebê, a força que se irradia dessa condição primitiva irá compor a base de todas as expressões de sexualidade, amor e erotismo em outras etapas da evolução humana. No momento em que a “sexualidade arcaica” predomina na realidade psíquica, as relações amorosas e sexuais aproximam-se do medo da castração, da perda de limites corporais, do aniquilamento ou da morte.

Dessa forma, a erotização extremada, em alguns casos, pode ser o meio de superação de tais sofrimentos traumáticos, de autocura etc. Joyce denominou de neo-sexualidades os roteiros eróticos incomuns – que podem assumir diferentes desenhos, disfarces, objetos fetichistas, jogos sadomasoquistas, entre outras escolhas – e diferentes de uma sexualidade dita como normal. Esses movimentos foram construídos para dirimir e/ou reparar os defeitos e falhas da identidade subjetiva do indivíduo.

No entanto, essas “montagens” não são equivalentes à perversão. Esse termo para a autora se aplicaria então e apenas às trocas sexuais nas quais o indivíduo perverso é totalmente indiferente às necessidades e desejo do outro.

Para McDougall, pode-se traçar um ponto de tangência entre a noção de neo-sexualidade e a perversão, nas quais as práticas e/ou roteiros sexuais são buscados, incansavelmente, à maneira de uma droga, com o objetivo de dissipar estados mentais dolorosos ou insuportáveis.

As obras de Joyce McDougall foram traduzidas para o português, excetuando sua última obra sobre Winnicott, de 2003, e são listadas a seguir:

  • Diálogo com Sammy (com Serge Lebovic) (1960) [Tradução brasileira realizada em 2001];
  • Em defesa de uma certa anormalidade. Teoria e clínica psicanalítica (1978). [Tradução brasileira realizada em 1991];
  • Teatros do Eu (1982). [Tradução brasileira realizada em 1992];
  • Teatros do corpo. O psicossoma em psicanálise (1989). [Tradução brasileira realizada em 1991];
  • As múltiplas faces de Eros. Uma exploração psicanalítica da sexualidade (1995) [Tradução brasileira realizada em 1997];
  • Donald Winnicott the man: reflections and recollections (2003).

Para saber mais sobre a vida e a obra de Joyce MCdougall indica-se: Menahem, Ruth (1999). Joyce McDougall. Psicanalistas de hoje. São Paulo: Via Lettera Editora e Livraria.

Somam-se a essas obras artigos psicanalíticos e capítulos em livros onde encontraremos a riqueza e originalidade do pensamento da autora, que se move não à margem das escolas psicanalíticas, mas no terreno fértil existente entre elas.

Karen Horney (1885-1952)

Karen Horney, assim como Erich Fromm, Frieda Fromm-Reichmann e Clara Thompson, pertenceu à escola culturalista, neofreudiana ou neoanalítica da psicanálise. Ela nasceu em Hamburgo, filha de Berndt Wackels Danielsen, um capitão teuto-norueguês da HAPAG, e de Clotilde Marie van Ronzelen, que vinha de uma família holandesa abastada. Em 1906, Karen Danielsen iniciou seus estudos de medicina em Freiburg, dando continuidade à sua formação em Göttingen e Berlim, onde obteve seu diploma em 1911.

Em 1909, ela se casou com o economista e cientista político Oskar Horney (1882-1947), que construiu uma carreira como secretário-geral na empresa Stinnes. O casamento, que terminou oficialmente em divórcio em 1938, gerou três filhas: Brigitte (nascida em 1911), Marianne (nascida em 1913) e Renate (nascida em 1916). Por razões tanto pessoais quanto profissionais, Karen Horney iniciou uma análise com Karl Abraham em 1910, que durou, com interrupções, até 1918. Em 1912, ela foi admitida na Associação Psicanalítica de Berlim e participou ativamente da criação do Instituto Psicanalítico de Berlim (BPI).

Sua formação especializada em neurologia e psiquiatria foi concluída em 1912 no Hospital Urbano Municipal e no instituto psiquiátrico Berolinum, em Lankwitz, atuando posteriormente como médica assistente na clínica neurológica de Hermann Oppenheim. Em 1913, transferiu-se para o Charité de Berlim, sob a supervisão de Karl Bonhoeffer, com quem obteve seu doutorado em 1915, defendendo uma tese sobre psicoses pós-traumáticas decorrentes de lesões cranianas. De 1914 a 1918, trabalhou novamente no Berolinum, antes de estabelecer-se como psicanalista em 1919. Entre 1920 e 1921, realizou uma análise didática com Hanns Sachs e, a partir de então, atuou como analista didata no BPI até 1932.

No congresso da Associação Psicanalítica Internacional (IPV) realizado em 1922 em Berlim, Karen Horney apresentou sua conferência sobre a gênese do complexo de castração feminino, na qual debateu criticamente o ensaio de Abraham sobre as formas de expressão do complexo de castração feminino, questionando pela primeira vez as premissas de Sigmund Freud sobre a inveja do pênis. Freud reagiu em 1925 com seu ensaio sobre as consequências psíquicas das diferenças anatômicas entre os sexos. Estava aberto, assim, o debate que ficou conhecido como “Freud-Jones”, embora tenha sido travado essencialmente entre Freud e Horney, sobre a sexualidade feminina.

Ao longo das décadas de 1920 e 1930, Karen Horney desenvolveu seu próprio conceito sobre o complexo de castração feminino. Ela reconheceu a existência de uma inveja do pênis primária, de natureza anatômica, mas que, segundo ela, não impedia o amor da filha pelo pai. Enquanto a concepção de Freud baseava-se no suposto desconhecimento da vagina, Horney partiu da premissa de sensações vaginais precoces na infância. Para ela, o medo de lesões vaginais e a frustração causada por um pai falho desencadeariam o complexo de castração, associado ao recalcamento da vagina e à rejeição da feminilidade. A identificação com a mãe seria substituída pela identificação com o pai, reavivando a inveja do pênis, que só então atingiria sua eficácia plena na defesa contra o vínculo edípico feminino. Segundo Horney, a negação da vagina nos homens serviria para defender-se da inveja que sentem da capacidade feminina de gerar filhos, enquanto, para as mulheres, significaria a adoção de valores masculinos culturalmente impostos e a renúncia à autorrealização.

Em 1932, a convite de Franz Alexander, Karen Horney mudou-se para os Estados Unidos para colaborar na fundação de um instituto psicanalítico em Chicago. Após divergências com Alexander, ela se mudou para Nova York em 1935, tornando-se membro da Sociedade Psicanalítica de Nova York (NYPS) e analista didata no Instituto de Washington-Baltimore. Ela se integrou ao “Zodiac Club”, grupo em torno de Harry Stack Sullivan que também incluía Clara Thompson e Erich Fromm. Após sofrer restrições em sua atuação como analista didata na NYPS devido às suas ideias neofreudianas, Horney e outros membros do Zodiac desligaram-se da instituição em 1941, fundando o Instituto Americano de Psicanálise (AIP) e a Associação para o Avanço da Psicanálise (AAP).

Karen Horney foi editora do American Journal of Psychoanalysis e diretora do AIP até o fim de sua vida. Ela rejeitava a “análise leiga” (praticada por não médicos) e, quando por sua influência o não médico Erich Fromm não obteve permissão para lecionar no AIP, Fromm, Sullivan, Thompson, Fromm-Reichmann e outros deixaram a AAP, fundando em 1943 a filial nova-iorquina da Escola de Psiquiatria de Washington.

Nos Estados Unidos, Karen Horney distanciou-se cada vez mais das posições de Freud, criticando não apenas sua concepção de feminilidade, mas a teoria pulsional como um todo. Em sua visão, não são os fatores sexuais, mas os fatores culturais, que são determinantes para o surgimento de neuroses. Para ela, um indivíduo neurótico é alguém que, em sua infância, vivenciou dificuldades de origem cultural de forma particularmente intensa, desenvolvendo a “ansiedade básica” que caracteriza sua condição. Em seus últimos anos, Karen Horney voltou-se para o Zen-Budismo, falecendo aos 67 anos devido a um carcinoma na vesícula biliar.

Lou Andreas-Salomé (1861 - 1937)

Lou Andreas-Salomé, a quem Freud chamou de poeta da psicanálise, nasceu em São Petersburgo, Rússia, no ano de 1861 e faleceu em Gottingen, Alemanha, em 1937. Foi uma mulher que exerceu grande influência na vida de homens como Rilke e Nietzsche e, apesar de sua tumultuada vida amorosa despertar maior interesse, a sua obra escrita é vasta e rica.

O livro O erotismo seguido de reflexões sobre o problema do amor é composto de dois artigos, ambos constituem importante contribuição para uma abordagem dos problemas da mulher na sociedade contemporânea. Lou refere que seja qual for o ponto de vista em que abordemos o erotismo, temos sempre o sentimento de proceder com extrema parcialidade.

“A ambigüidade e a bipartição caracterizam de um modo tanto mais típico o problema do erotismo, quanto ele parece resistir mais do que qualquer outro às definições, flutuando entre o físico e o espiritual.” (p. 14) A autora parte da sexualidade, do ponto de vista mais fisiológico, para descrever a base do erotismo, e depois vai estabelecendo relações entre este e a arte, a religião, a sociedade. Desenvolve também as vicissitudes do erotismo na mulher e na maternidade.

No artigo sobre o problema do amor, Lou descreve a “trama” de elementos – narcisismo, idealização, egoísmo, hostilidade, felicidade – envolvidos no amor. Nas suas próprias palavras, o término do artigo: “Apenas um homem sabe que a felicidade e tormento são a mesma coisa: é o criador. Mas, muito antes dele, um ser humano atingido pelo amor estendeu, suplicante, suas mãos para uma estrela, sem se perguntar se era prazer ou dor o que implorava dela…” (p. 111).

Margarethe Hilferding (1871-1942)

Margarethe (também escrita como Margarete) Hilferding foi a primeira mulher a tornar-se membro da Associação Psicanalítica de Viena (WPV). Nascida em Viena, era filha de pais judeus: seu pai era o clínico geral Paul Hönigsberg e sua mãe era a defensora dos direitos das mulheres Emma Hönigsberg, nascida Breuer. Após concluir sua formação e trabalhar como professora, Margarethe Hönigsberg matriculou-se na Faculdade de Filosofia da Universidade de Viena em 1897, mas migrou para o curso de Medicina em 1900, ano em que as mulheres foram admitidas nessa área. Em 1903, ela se tornou a primeira mulher a concluir o curso de Medicina na Universidade de Viena.

Durante seus estudos, ela se juntou à Associação Livre de Estudantes Socialistas, onde conheceu Rudolf Hilferding (1877-1941), o teórico austromarxista que viria a ser ministro das Finanças da República de Weimar, com quem se casou em 1904. Em 1906, Rudolf mudou-se para Berlim para assumir um cargo como redator no periódico Neue Zeit e uma docência na escola do Partido Social-Democrata. Margarethe o seguiu um ano depois, mas não obteve permissão para exercer a medicina na Alemanha. Com o fracasso do casamento, retornou a Viena em 1909 acompanhada de seus dois filhos, Karl e Peter, embora o divórcio tenha sido oficializado apenas em 1923. Em 1910, Margarethe Hilferding abriu seu consultório como clínica geral no distrito operário de Favoriten, em Viena, onde também atuou como vereadora social-democrata até 1934.

Sua admissão na WPV foi proposta por Paul Federn em 1910. Enquanto Isidor Sadger e Fritz Wittels opunham-se fundamentalmente à entrada de mulheres na associação, Sigmund Freud manifestou-se a favor. Em uma votação secreta, Margarethe Hilferding foi eleita como o primeiro membro feminino com 12 dos 15 votos. Em sua palestra de admissão, intitulada “Sobre a Base do Amor Materno” (1911), ela defendeu a visão — então revolucionária — de que não existe um amor materno inato. Para ela, esse sentimento seria despertado pelo cuidado físico com a criança, que, no período pós-parto, constituiria um objeto sexual natural para a mãe. Com essas reflexões, Margarethe Hilferding antecipou teorias psicanalíticas fundamentais sobre a relação mãe-filho.

Quando o conflito entre Sigmund Freud e Alfred Adler se agravou em 1911, ela foi um dos seis membros que deixaram a WPV junto com Adler. Como mulher de esquerda, Margarethe sentiu-se atraída pela Psicologia Individual de Adler, que atribuía maior importância às influências do ambiente e da educação do que a psicanálise freudiana. No entanto, ela passou a defender posições adlerianas de forma mais aberta apenas a partir de 1925, ano em que ingressou na Associação Vienense de Psicologia Individual. A partir de 1927, assumiu a direção de um centro de aconselhamento educacional da associação e, em 1930, tornou-se membro de sua diretoria.

Margarethe Hilferding-Hönigsberg exerceu a medicina como ginecologista e médica escolar, ministrou cursos e palestras sobre questões educacionais e femininas, além de ser ativa na organização de mulheres socialistas. Ela publicou trabalhos focados em temas como saúde feminina, maternidade e controle de natalidade. Em 1926, em seu livro Geburtenregelung (Controle de Natalidade), defendeu a liberalização do aborto, fundamentando sua posição também em argumentos eugênicos.

Em 1934, por ser judia, Margarethe Hilferding teve sua licença para atender pelo seguro de saúde público cassada, sendo obrigada a atender apenas pacientes particulares. Após a anexação da Áustria pela Alemanha nazista (“Anschluss”) em 1938, ela ainda trabalhou voluntariamente no Hospital Rothschild, em Viena. Em junho de 1942, foi deportada para o gueto de Theresienstadt e, em setembro do mesmo ano, foi assassinada em Treblinka.

Marie Langer (1910 - 1987)

Marie Glass Hauser de Langer nasceu em Viena, em 1910, e faleceu em Buenos Aires, Argentina, em dezembro de 1987. Para falar dessa verdadeira ativista pelas causas da psicanálise e dos direitos humanos, valho-me do trabalho de Elisabeth Roudinesco e Michel Plon, em Dicionário de Psicanálise, editado pela Jorge Zahar, e do verbete escrito por Janine Puget no Dicionário Internacional de Psicanálise, editado pela Imago.

Marie Langer foi uma psicanalista alemã que se radicou na Argentina, a partir de 1942, tendo sido membro fundador da Associação Psicanalítica Argentina – APA, ao lado de Angel Garma, Celes Ernesto Cármo, Arnaldo Rascovsky e Enrique Pichon-Rivière. Desenvolveu sua clínica tendo permanecido como membro da APA durante 29 anos. Marie, Garma e Cármo foram os primeiros analistas didatas e supervisores do núcleo fundador da APA. Tornou-se figura eminente na história da psicanálise na América Latina, ao lado de H. Pichon-Rivière.

Nascida no seio de uma família burguesa, judaica e assimilada, sua infância – como a de toda sua geração – foi marcada pela guerra e pela queda do império austro-húngaro. Na adolescência, começou a ler Marx e Freud, sob influência da diretora de sua escola. No início da década de 30, Marie casou-se, iniciou os estudos de medicina, divorciou-se e aderiu ao Partido Comunista Austríaco, que foi logo depois decretado fora-da-lei, junto a todos os partidos de esquerda.

O banimento dos partidos de oposição traria sérias conseqüências na vida dos psicanalistas em formação na Sociedade Psicanalítica de Viena, engajados politicamente. Para Freud, o comprometimento político dos psicanalistas poderia gerar represálias por parte do governo, o que o levou a optar, junto com seus discípulos, pela exclusão de militantes de extrema esquerda. Essa decisão afetaria Marie Langer e, entre outros, Wilhelm Reich (1897-1957), criador do freudo-marxismo e artífice de uma concepção da sexualidade mais próxima da sexologia que da psicanálise.

Inicialmente anestesista, Marie Langer interessou-se depois pela psiquiatria, quando fez análise com Richard Sterbas. A participação nas atividades da Wiener Psichoanalytische Vereinigung (WPV) proibia qualquer ligação política. Ao ser denunciada por uma analisanda, Marie foi excluída do grupo de alunos. Mudou-se então para Berlim, onde acompanhou os seminários de Helene Deutsch e fez supervisão com Jeanne Lampl-de Groot.

Obrigada a exilar-se por causa do nazismo, em 1936, emigrou para a Espanha onde trabalhou nas Brigadas Internacionais como médica anestesista. No front, conheceu Max Langer, seu segundo marido, e juntos partiram para o Uruguai e logo depois para a Argentina. Para evitar conflitos naquele país, separou sua prática clínica de sua atividade política e somente a Pichon-Rivière confidenciou sua ligação com o Partido Comunista Argentino. Fez uma segunda “análise de supervisão” com Cárcamo.

Na APA, Marie Langer foi supervisora, diretora de seminários, secretária, membro da comissão de ensino, presidente, diretora da Clínica Psicanalítica Enrique Racker. Lecionou no instituto e foi psicanalista didata durante 29 anos. Foi membro fundador da Sociedade de Medicina Psicossomática de Buenos Aires e da Associação Argentina de Psicoterapia de Grupo, tema ao qual dedicou grande parte de sua pesquisa.

Marie Langer teve quatro filhos: Tomas, Martin, Ana e Veronica. Ela se interessou pelas mulheres que tentavam conciliar o desejo de emancipação ao de maternidade. Em 1952, publicou Maternidad y sexo, o qual se tornou um clássico da literatura psicanalítica argentina. Nesse livro, em que descreve o lugar da mulher na história, ela relata o caso de uma paciente estéril que engravidou após nove meses de tratamento psicanalítico.

Construiu uma concepção unitária do corpo biológico e do corpo psíquico, fundada na medicina psicossomática e no kleinismo. Após longa reflexão histórica e teórica sobre a sexualidade feminina, Marie Langer concluía que, do ponto de vista do inconsciente, existia na mulher uma relação constante entre a aceitação do orgasmo e do prazer e o desejo de maternidade. Sua tese contrariava as idéias feministas da segunda metade do século XX. Foi a partir desse trabalho que Marie Langer aprofundou a causa do feminismo, estudando os mitos que cercavam a vida de Eva Duarte Perón (1919-1952).

Personalidade contestadora, Marie sempre manifestava o desejo de que a psicanálise estivesse no centro das transformações sociais do século e não se limitasse a reproduzir gerações de terapeutas conformistas. Além de tenaz defensora da psicanálise, foi também defensora do marxismo e do feminismo. Lutou durante toda sua vida contra o fascismo e a esclerose do freudismo ortodoxo, conservando ao mesmo tempo suas qualidades de clínica.

Assim como Wilhelm Reich e Otto Fenichel, Marie Langer considerava o freudismo e o marxismo como duas possibilidades para a libertação do homem. O freudismo, ou a psicanálise, transformaria o sujeito por via da exploração do inconsciente e o marxismo transformaria a sociedade pela luta coletiva em busca de justiça social.

Em 1969 integrou o grupo Plataforma que visava transformar a política da psicanálise e as modalidades de formação dos psicanalistas. Em um congresso da IPA em Viena, em 1971, ela afirmou, em sua apresentação do texto Psicanálise e/ou Revolução: “Desta vez não renunciaremos nem a Freud nem a Marx”. Seu texto não foi aceito para publicação. Marie Langer demitiu-se então da APA, juntamente com 30 didatas e 20 alunos em formação. Ocorria naquele momento um acirramento das lutas contra a dominação militar na Argentina e a retirada de Langer e do grupo que a seguiu representou um duro golpe para o freudismo naquele país.

Com a volta de Juan Perón ao poder, os adversários políticos foram perseguidos por grupos paramilitares. Marie Langer supervisionou o trabalho de um estudante de psiquiatria que desejava apoiar os prisioneiros torturados. Nessa época, foi ameaçada pelo esquadrão da morte e emigrou para o México. Em 1981, Marie Langer formou a brigada México-Nicarágua de internacionalistas para a saúde mental e lançou um plano de desenvolvimento de métodos curativos inspirados na psicanálise.

Conforme observou N. Hollander, “Marie Langer e seu grupo notaram os efeitos psicológicos da repressão política e do exílio forçado. Observaram, entre os refugiados, a multiplicação dos casos daquilo que chamaram de ‘dor gelada’. As pessoas atingidas tornavam-se incapazes de chorar a perda dos que amavam”. Elas apresentavam sintomas múltiplos: despersonalização, distúrbios psicossomáticos etc.

As publicações de Marie Langer revelam várias linhas de pesquisa e deixam perceber sua ênfase na influência do contexto social e cultural sobre o campo da teoria psicanalítica: a sexualidade feminina, a esterilidade, as fantasias eternas, o “porque” da guerra, a psicanálise de grupo, o anti-semitismo, certos problemas metodológicos relacionados com o ensino da psicanálise, e problemas técnicos suscitados pela análise didática.

Em Ideología e idealización (1959), Langer repensa as sociedades psicanalíticas sob o ângulo da especificidade de sua disciplina e das exigências que pesam sobre os analistas no seio das instituições em certos períodos históricos.

Sobre Marie Langer, escreve Janine Puget que “sua linha de conduta, sua busca da verdade, seu interesse pelo ser humano, especialmente pela mulher, fizeram dela uma psicanalista em sintonia com a sociedade do seu tempo e capaz de explorar todos os aspectos do mal estar de nossa civilização” (Mijolla, 2005, p. 1065).

Onde encontrar o pensamento e a obra da psicanalista (algumas referências):

  • Langer, M. Maternidade e sexo, Porto Alegre, Artes Médicas, 1951.
  • Langer, M. Fantasias eternas a la luz del psicoanálisis, Buenos Aires, Nova, 1957.
  • Langer, M. Vicisitudes del movimiento psiconalitico argentino. In Franco Basaglia (org.), Razón, locura y sociedad, México, Siglo Veintinuno, 1978.
  • Langer, M. (org.). Cuestionamos I, II, Buenos Aires, Granica, 1971, 1972. Langer, M., Palacio, J. y Guinsberg, E. Memoria, historia y diálogo psicoanalítico, Mèxico, Folios, 1983.
  • Vezzetti, H., Isabel I, Lady Macbeth, Eva Perón. In Punto de Vista, 52, agosto de 1995, 44-48.
  • Roudinesco, Elisabeth, entrevista com Fernando Ulloa, 12 de outubro de 1995.

Referências bibliográficas:

  • MIJOLLA, Alain de (dir.), Dicionário internacional da psicanálise, comitê editorial: Sophie Mijolla-Mellor, Roger Perron e Bernard Golse; tradução, Alvaro Cabral, Rio de Janeiro, Imago Ed., 2005.
  • ROUNDINESCO, Elisabeth / PLON, Michel, Dicionário de psicanálise; tradução Vera Ribeiro, Lucy Magalhães; supervisão da edição brasileira Marco Antonio Coutinho Jorge, Rio de Janeiro, Imago Ed., 2005.

Margaret Schönberger Mahler (1897 - 1985)

De nacionalidade húngara, Margaret Schönberger Mahler nasceu em Sopron, na Hungria, em 10 de maio de 1897, e faleceu em Nova York, EUA, em 2 de outubro de 1985. Formou-se em medicina em 1922 e, na Áustria, mudou seu foco de interesse da pediatria para a psiquiatria. Em 1926 iniciou, com Helene Deutsch, sua análise de formação ou didática. Sete anos depois ela era aceita como analista. Com Anna Freud, ela criou o primeiro centro de tratamento para crianças em Viena.

Em 1936, Margaret Mahler casou-se com Paul Mahler e, fugindo da perseguição aos judeus, mudou-se para a Inglaterra e depois para os Estados Unidos. Malher ofereceu seminários sobre psicanálise de criança, deu aulas e filiou-se ao Instituto do Desenvolvimento Humano, ao Instituto Educacional e à Sociedade Psicanalítica de Nova York, cidade onde se fixou.

Em 1948 realizou estudos clínicos sobre psicose normal e patológica em crianças. Ela distinguia no bebê a psicose autística e a psicose simbiótica (normal ou patológica). Em 1950, Mahler e Manuel Furer fundaram o Master’s Children Centre em Manhattan. Ali desenvolveu um modelo de tratamento tripartite, no qual a mãe participava do tratamento da criança. Mahler deu ênfase ao papel do meio ambiente para a criança. Estava particularmente interessada na dualidade mãe-bebê e documentou cuidadosamente o impacto das primeiras separações da criança com relação à sua mãe.

Sua tese principal parte de algumas das hipóteses de Freud, Bleuler e Kamer. A documentação de sua pesquisa sobre separação-individuação foi a contribuição mais significativa de Mahler para a psicanálise. Ela repousa na teoria freudiana das pulsões e dos estágios de desenvolvimento libidinal. Na teoria de Malher, o desenvolvimento da criança ocorre por fases:

  • Fase autística, nas primeiras semanas;
  • Fase simbiótica, que dura até uns cinco meses;
  • Fase de separação-individuação (marca o fim da fase anterior).

Suas contribuições ganharam muita relevância, embora alguns considerem que elas estão mais voltadas para a psicologia do ego do que para a psicanálise propriamente dita.

Saiba mais: Mahler, Margaret, S., O nascimento psicológico da criança: simbiose e individuação / Margaret Mahler, Fred Pine e Anni Bergman; trad. Jane A. Russo, Porto Alegre, Artes Médicas, 1993.

Melanie Klein (1882 - 1960)

A autobiografia de Melanie Klein, em poder do Melanie Klein Trust, é inédita. Entretanto, em 1983, um precioso acervo de dados a respeito da importante psicanalista foi obtido a partir de uma coletânea de cartas de família descoberta no sótão da casa de seu filho mais novo, Erich. Coube a seus biógrafos a constatação de que o conteúdo de tais cartas conflita com a autobiografia que, segundo Melanie, seria sua história oficial. Enquanto apenas uma carta de seu marido subsiste, a maioria das escritas por sua mãe e seu irmão parecem ter sido conservadas. Destas, mãe e irmão emergem como pessoas muito diferentes daquelas descritas por Melanie Klein.

Melanie Klein nasceu em Viena em 30 de março de 1882, filha de Moritz Reizes e Libussa Deutch. Moritz Reizes era um judeu polonês nascido em Lemberg (hoje Lvov), na Galícia. Por muitos anos foi um estudioso do Talmude, mas provavelmente influenciado pelo Haskalah, um movimento de emancipação judaica, rompeu com a ortodoxia religiosa e formou-se em medicina. Culto, fluente em vários idiomas, nunca conseguiu sucesso em sua carreira em virtude primeiro de ser judeu e, também, de origem polonesa, o que significava pertencer a uma classe desfavorecida dentro da hierarquia social judaica. Moritz foi casado duas vezes. O primeiro casamento foi desfeito quando ele contava 37 anos de idade. Aos 45 conheceu e casou-se com Libussa, também judia, de origem eslovaca, 24 anos mais moça que ele, descrita por Melanie em sua autobiografia como uma jovem culta, espirituosa e interessante. Depois do casamento, o casal estabeleceu-se em Deutsch-Kreutz, Áustria. Em algum momento no período entre o nascimento das duas últimas filhas, a família mudou-se para Viena, na esperança de melhorar sua difícil situação financeira. Em Viena, o Dr. Reizes trabalhou como assistente de um dentista e, para complementar sua renda, como consultor médico de um teatro de variedades.

O casal teve quatro filhos: Emilie (1876), Emanuel (1877), Sidonie (1878) e Melanie Reizes. Dentro da família, Emilie era a predileta do pai, Sidonie a mais bonita e Emanuel uma espécie de gênio. E embora a mãe tivesse em Melanie sua filha preferida, confessou-lhe que ela não fora desejada. Libussa amamentou os três primeiros filhos, mas Melanie teve uma ama-de-leite que, segundo ela, “me amamentava a qualquer hora que eu pedisse”. Ainda segundo Melanie Klein em sua autobiografia, “nessa época, Trub King ainda não fizera sua obra devastadora”, referindo-se ao pediatra neozelandês que defendia um regime alimentar severo para os bebês. Com relação ao pai ela diz:_”Não me lembro de alguma vez ele ter brincado comigo. Doía-me pensar que meu pai era capaz de afirmar com toda franqueza e sem consideração por meus sentimentos que preferia minha irmã mais velha, sua primogênita.” Desde cedo Melanie exibia uma notável autoconfiança. Na velhice dizia às pessoas que “não era tímida em absoluto” e, de fato, nunca se deixara passar despercebida durante toda a sua tumultuada e importante vida.

Melanie Klein sentia grande atração pela atmosfera cultural da família de sua mãe, filha de um rabino. Tanto o pai quanto o avô de Libussa eram muito respeitados tanto por seu saber quanto por sua tolerância. Melanie herdou da família a vontade de aprender e logo se tornou uma estudante ambiciosa, consciente de suas notas. Sonhava em estudar medicina e especializar-se em psiquiatria, o que nunca se realizou em virtude da situação financeira da família, agravada com a morte do pai em 1900. Ela chegou a estudar arte e história na Universidade de Viena, mas não chegou a graduar-se. O irmão Emmanuel foi seu grande mentor intelectual. Ele iniciou o curso de medicina que abandonou para se dedicar às artes. Era muito doente, portador de cardiopatia conseqüente a doença reumática, tuberculose e depressão. No final da vida tornou-se viciado em drogas. Emmanuel tinha para com suas irmãs um relacionamento com matizes incestuosos e, para com a família em geral, um vínculo marcado pelo êxito em provocar culpa e vitimizar-se. Para Melanie, ele teria sido um pai substituto, um companheiro íntimo e um amante imaginário e ninguém em sua vida jamais conseguiu substituí-lo. No período compreendido entre 1887 e 1902, Melanie Klein sofreu grandes perdas: a irmã Sidonie, em 1887, de tuberculose; o pai, em 1900, de pneumonia; o irmão Emmanuel, em 1902, de cardiopatia.

Em 1903, logo após completar 21 anos, ela casou-se com Arthur Steven Klein, engenheiro químico de caráter sombrio e tirânico de quem estava noiva desde 1899. Arthur era seu primo em segundo grau por parte de mãe e amigo de Emmanuel. Sua família residia em Rosemberg, na parte eslovaca da Hungria. Nada se sabe sobre a cerimônia. Em um texto intitulado “Chamado de Vida”, que seus biógrafos consideram autobiográfico, Melanie Klein escreve sobre o choque vivido por uma moça, Anna, na noite de núpcias: “E, portanto, tem de ser assim, a maternidade tem que começar com repugnância?” O casal passou a lua-de-mel em Zurique e se estabeleceu na cidade do noivo. Dois meses depois do casamento, Melanie descobriu que estava grávida e em 19 e janeiro de 1904 nasceu a primeira filha, Melitta. Melanie teria dito que estava gostando de ser mãe, mas sua autobiografia contém o seguinte trecho: “Lancei-me o máximo que pude no papel de mãe e no cuidado de minha filha. Sabia o tempo todo que não estava feliz, mas não havia saída”. Em 2 de março de 1907 nasceu Hans, o segundo filho, cuja gravidez foi marcada por um estado de profunda depressão. Em 1908 os Klein mudaram-se de Rosemberg para Krappitz; no ano seguinte para Hermanetz e em 1910 para Budapeste, o que possibilitou a convivência de Melanie com a parte da família do marido estabelecida naquela cidade, com a qual manteria uma sólida ligação afetiva.

Durante a infância dos filhos, Melanie Klein teve vários episódios de depressão e se afastou da família por longos períodos, para viagens de repouso ou para internação em clínicas especializadas. Durante tais ausências, sua casa e família ficavam a cargo de sua mãe, que se colocava em sua vida de forma intrusiva e autoritária. A mãe a via e fazia com que ela própria se visse como uma pessoa doente, neurastênica e incapaz. Mãe e filha mantinham entre si um relacionamento estreito e afetuoso, porém marcado por atitudes e sentimentos ambivalentes: amor e ódio, apoio e intrusão, liberdade e controle, dependência e autonomia.

O ano de 1914 foi marcado por grandes acontecimentos na vida de Melanie Klein. Em 1º de julho nasceu seu último filho, Erich Klein. Em 6 de novembro morreu sua mãe, Libussa. Além disso, aos 32 anos de idade ela encontrou-se com a psicanálise: leu o texto “Sobre os Sonhos”, de Sigmund Freud, e provavelmente iniciou sua análise com Sandor Ferenczi, buscando livrar-se da depressão. Para Melanie Klein, antes de se tornar uma profissão ou um interesse intelectual, a psicanálise foi uma experiência de crescimento e um caminho de cura pessoal.

O ano de 1918 foi importante para o início da carreira de psicanalista. Foi realizado em Budapeste o 5º Congresso Internacional de Psicanálise e Sandor Ferenczi foi escolhido para a presidência. Durante o Congresso, encantada, Klein ouviu Freud ler “Linhas de Avanço em Terapia Psicanalítica”. Já no ano seguinte, em julho, ela apresentou à Sociedade Húngara de Psicanálise seu primeiro artigo, “Der Familienroman in statu nascendi”, relato da análise de uma criança, depois do qual foi admitida como membro. O aspecto insólito do artigo era que descrevia a análise de Erich, seu último filho, cuja identidade foi encoberta nas versões posteriores. O objetivo era mostrar os resultados obtidos quando uma mãe cria o filho de acordo com conceitos psicanalíticos esclarecidos. A Sociedade de Psicanálise de Budapeste, considerada por Freud o principal centro de psicanálise da época, seria dizimada pouco tempo depois por razões políticas. A queda do Império Austro-Húngaro foi seguida por um regime comunista de duração breve que, por sua vez, deu lugar a um regime branco, o Terror Branco, francamente anti-semita, o que teve como consequência a expulsão dos psicanalistas judeus da Sociedade e sua dissolução. Assim, em 1919, Melanie Klein saiu de Budapeste com os filhos para estabelecer-se por um curto período em Rosemberg com os sogros. Seu marido, do qual se divorciaria em 1923, mudou-se por razões profissionais para a Suécia, onde permaneceu até 1937, novamente casado e depois divorciado. Morreu na Suíça em 1939.

Em 1921, Melanie Klein mudou-se para Berlim, também um importante centro tanto de atividade como de formação psicanalítica. Em 1922, aos 40 anos, tornou-se membro associado da Sociedade Psicanalítica daquela cidade. Em 1924, iniciou sua segunda análise, com Karl Abraham, como Ferenczi, um destacado discípulo de Freud. A morte precoce de Abraham (1925) privaria Melanie de seu analista e protetor, encorajando seus detratores a se declararem abertamente, mostrando desprezo pela ascendência polonesa, ênfase na falta de estudos universitários e ironia perante uma mulher que se pretendia mestra e, além disso, analista de crianças. Sem Abraham, ela ficaria exposta às críticas dos membros mais conservadores da Sociedade de Berlim, contrários, sobretudo, às suas idéias relativas ao atendimento de crianças, originais e ousadas. Tais idéias contrariavam o pensamento de Sigmund Freud e de sua filha Anna, a qual também se dedicava à psicanálise infantil. Enquanto Anna via a psicanálise numa perspectiva pedagógica, Melanie Klein mostrava-se determinada a explorar o inconsciente infantil. Para isso, introduziu uma modificação técnica essencial, substituindo a palavra pelo brincar, garantindo a maior proximidade possível entre a psicanálise de adultos e de crianças. Na época, o assassinato de Hermine von Hug-Hellmuth, por um sobrinho que havia sido seu paciente, também serviu para reforçar a oposição à psicanálise de crianças.

Numa postura diferente da adotada pelos alemães, os ingleses receberam a proposta de trabalho de Melanie Klein com respeito, curiosidade e entusiasmo. Ainda no ano de 1925, avisado de suas qualidades por James Strachey, o célebre tradutor e editor de texto da Standard Edition das Obras de Freud e um dos animadores do famoso grupo londrino de Bloomsbury, Ernest Jones a convidou a proferir palestras em Londres. Para essa cidade mudou-se no ano seguinte e ali viveu até o fim de sua vida, desenvolveu-se plenamente no âmbito profissional e fundou uma escola frutífera até os dias atuais. Em 1927, tornou-se membro da Sociedade Psicanalítica Britânica.

Em 1932, Melanie Klein publicou seu primeiro livro, a coletânea “A Psicanálise de Crianças”, ao qual fará referências ao longo de toda a sua obra. Mas, no âmbito afetivo, a década de 30 lhe traria duas experiências devastadoras: a morte de seu segundo filho, Hans, ao escalar uma montanha, e a deterioração definitiva de seu relacionamento com a primogênita Melitta, que se tornara analista e também ingressara na Sociedade Britânica. Na elaboração da perda de Hans, Melanie Klein escreveu o texto “Uma contribuição para a psicogênese dos Estados Maníaco-Depressivos” (1935). Em 1940, publicou “O Luto e suas Relações com os Estados Maníaco-depressivos”.

A mudança da família Freud de Viena para Londres, no final dos anos 30, em virtude da Segunda Grande Guerra, faria com que a Sociedade Britânica se dividisse ideologicamente em dois grandes grupos: o dos adeptos de Melanie Klein, que tinha à frente Susan Isaacs, Paula Heimann e Joan Rivière, e o dos adeptos do freudismo clássico, entre os quais figurava Melitta. Um terceiro grupo, composto por analistas independentes, não alinhados com nenhum dos dois anteriores, se formaria depois, num período marcado pela polêmica. Apesar da contundência dos debates, Klein e seu grupo permaneceram na Sociedade Britânica e na Associação Internacional de Psicanálise (IPA). Não foram expulsos, como viria a acontecer com Lacan na década seguinte, nem abriram uma dissidência contra Freud, como haviam feito Adler e Jung anteriormente.

Na verdade, a escola kleiniana expandiu conceitos freudianos e, em meio à turbulência da época, definiu um período de produção teórica exuberante. A década de 30 ficaria marcada pelo conceito de posição depressiva e a de 40 pela posição esquizoparanóide. Em 1946, Melanie Klein publicou um de seus textos mais importantes: “Notas sobre os Mecanismos Esquizóides”. No início da década seguinte o grupo kleiniano lançou o livro “Desenvolvimentos em Psicanálise”. Em 1957, Melanie Klein publicou “Inveja e Gratidão”, seu último livro com grandes novidades teóricas. O texto “Narrativa da Análise de uma Criança, no qual Melanie Klein trabalhou até poucos dias antes de sua morte, em 22 de setembro de 1960, seria editado logo em seguida.

Ao longo de sua obra, Melanie Klein formulou uma teoria que possibilitou a compreensão da vida mental primitiva e abriu novos horizontes dentro do campo da psicanálise. Para Julia Kristeva, que dedicou à psicanalista o segundo volume da coleção “O Gênio Feminino”, a clínica da infância, da psicose e do autismo, em que predominam nomes como Bion, Winnicott e Frances Tustin, seria inconcebível sem a inovação kleiniana. Melanie Klein seria em seu entender a refundadora mais ousada da psicanálise moderna. Segundo Luís Cláudio Figueiredo e Elisa Maria de Ulhôa Cintra, “se perguntássemos aos estudiosos da área qual teria sido, depois de Freud (1856-1939) e ultrapassando-o, o autor que mais contribuiu para que se compreenda o funcionamento psíquico inconsciente, não haveria dúvida: Melanie Klein, seguida de seus discípulos Wilfred Bion (1897-1979) e Donald Winnicott (1896-1971). A estranheza das formações do inconsciente e das primeiras experiências desafia todas as medidas de bom senso. Melanie Klein ensinou a por de lado a razão e o senso de medida para compreender o caráter autônomo e demoníaco das fantasias inconscientes e angústias.”

Referências Bibliográficas

  • Figueiredo, L. C.; Cintra, E. M. U. Melanie Klein. Estilo e Pensamento. São Paulo: Escuta, 2004.
  • Figueiredo, L. C.; Cintra, E. M. U. Melanie Klein. São Paulo: Publifolha, 2008.
  • Grosskurth P. O Mundo e a Obra de Melanie Klein. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1992.
  • Kristeva, J. O Gênio Feminino. A vida, a loucura, as palavras. Rio de Janeiro: Ed. Rocco Ltda, 2002.
  • http://psicanalisekleiniana.vilabol.uol.com.br/biografia.html

Neusa Santos Souza (1948-2008)

Neusa Santos Souza (Cachoeira, Bahia, 1948 – Rio de Janeiro, 20 de dezembro de 2008). Psiquiatra, psicanalista, escritora. É referência na construção epistemológica dos aspectos sociológicos e psicanalíticos da negritude, no debate sobre relações étnico-raciais e sofrimento mental, além de mesclar psicanálise com militância antirracista por meio de crônicas e artigos em jornais e revistas. Deixa importantes reflexões sobre o ser negro em uma sociedade racista. 

Neusa cresce em família humilde de Cachoeira, na região do Recôncavo Baiano, e permanece em sua cidade natal até se mudar para a casa de uma tia, no bairro de Campo Grande, em Salvador, para cursar Medicina na então Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Entra em contato com a psicanálise logo no início do curso e se forma em Psiquiatria. No início dos anos 1970, ainda na graduação, acompanha a amiga já formada Ana Rocha como assistente no Sanatório Bahia, clínica de saúde mental localizada no Largo da Lapinha, em Salvador. Lá, realiza trabalho com pacientes psiquiátricos a partir de dispositivos para além das lógicas medicamentosas e enclausuradoras, como trabalhos em grupos e o cultivo de uma horta.

Muda-se para o Rio de Janeiro em 1975 e permanece em articulação íntima com o movimento negro organizado em torno do Instituto de Pesquisa das Culturas Negras (IPCN) e com o Instituto Brasileiro de Psicanálise, Grupos e Instituições (Ibrapsi). Consquista o título de mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com a dissertação Tornar-se negro, orientada por José Otávio de Freitas Júnior e co-orientada por Gregório Franklin Baremblitt, ambos psiquiatras. 

Lançado como livro na década de 1980 e logo considerado um marco da psicologia preta no Brasil, o trabalho propõe o “discurso do negro sobre o negro” e traz o estudo da autora sobre a vida emocional dos negros, com reflexões sobre o custo emocional da negação da própria cultura e do próprio corpo, considerada a primeira referência sobre a questão racial na psicologia. Neusa contribui também com artigos sobre a psicose e a psicanálise lacaniana.

Começa a trabalhar e estudar no Núcleo de Atendimento Terapêutico (NAT), onde organiza diversos seminários. Posteriormente, deixa o NAT e passa a trabalhar como funcionária concursada no Centro Psiquiátrico Pedro II, no bairro do Engenho de Dentro, atual Instituto Municipal de Assistência à Saúde Nise da Silveira, local de encontro de muitos psiquiatras militantes que começam a construir uma das primeiras experiências da reforma psiquiátrica no Brasil. Com mudanças burocráticas na instituição que contrariam seus ideais, deixa o centro psiquiátrico e se mantém apenas com os rendimentos de seu trabalho clínico em consultório próprio – aluga um espaço em Copacabana e, após um tempo, organiza um espaço em sua própria residência, no bairro carioca de Laranjeiras, onde morava sozinha.

Em 2008, a Fundação Palmares louva, em nota, sua contribuição para o estudo das relações raciais, considerando a obra da autora como a “primeira referência sobre a questão racial na psicologia”. No mesmo ano, o ator e apresentador Lázaro Ramos (1978) exibe no programa Espelho, atração comandada por ele e transmitida pelo Canal Brasil, uma das raras entrevistas com a psiquiatra, um legado audiovisual importante para entender suas teses vistas por ela mesma três décadas depois.

Em reconhecimento às suas contribuições, é criado em 2015, no curso de Psicologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), o Coletivo de Estudantes Neusa Souza. O volume quatro da importante coleção Sankofa é dedicado à autora, que também empresta seu nome ao Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) II Neusa Santos Souza, no Rio de Janeiro.

Neusa Santos Souza, que sempre teve ressalvas à filiação a um grupo e/ou instituição, circula por diversos espaços e deixa importantes contribuições por onde passa. Sua produção intelectual é referência para o pensamento da psicologia brasileira sobre relações étnico-raciais, sobre o processo de “branqueamento” e o sofrimento psíquico dos negros na sociedade brasileira. Ao lado de outros psiquiatras, formula uma das primeiras experiências da reforma psiquiátrica brasileira, que logo se intensifica e ganha expressão nacional. Neusa fica marcada na história pela sua luta contra o racismo e pela exposição dos danos psíquicos causados por ele. Seu pioneirismo nos estudos étnico-raciais dentro da psicologia abre espaço para reflexão sobre a construção de uma psicologia atenta às particularidades da população negra.

Paula Heimann (1899 - 1982)

Paula Glatzko, filha de pais russos, nasceu em 03 de fevereiro de 1899 em Danzig (Alemanha), cidade que viveu com sua família até iniciar seus estudos de medicina em Köenigsberg. No último ano do curso, casou-se com Franz-Anton Heimann. Em 1925, concluiu sua graduação e foi para Heidelberg, iniciando sua especialização em psiquiatria na conceituada universidade alemã que leva o mesmo nome da cidade.

No ano de 1928 mudou-se para Berlim, para iniciar sua formação no Instituto de Psicanálise. Concluiu essa primeira etapa em 1933. Seu primeiro analista foi Theodor Reik. Heimann divorciou-se e emigrou para a Inglaterra com sua única filha. No seu primeiro ano em Londres, ainda em 1933, tornou-se membro associado da Sociedade Britânica de Psicanálise.

Iniciou sua análise com Melanie Klein em 1935 (não se sabe ao certo a data do término dessa análise). Junto com Susan Isaacs, tornou-se firme defensora da teoria kleiniana. Em 1955 abandonou o grupo kleiniano da Sociedade Britânica de Psicanálise, após discordar de Melanie Klein. Heimann tornou-se membro do grupo independente de psicanalistas da sociedade até seu falecimento, em 28 de outubro de 1982.

Depois da Guerra, retornou para a Alemanha e auxiliou na formação de analistas alemães na Clínica de Psicossomática de Heidelberg. Mais tarde foi para Frankfurt dar aulas no Instituto Sigmund Freud. Vários outros importantes institutos de Psicanálise da Europa, Estados Unidos e América do Sul convidaram-na para realizar seminários e apresentar seus importantes artigos durante os anos seguintes.

Paula Heimann escreveu no total trinta artigos. Suas primeiras contribuições, no desenvolvimento dos conceitos sobre objetos internos e regressão, foram de grande importância para a teoria kleiniana. Mais tarde, em outros artigos, levantou a discussão sobre problemas clínicos e questões técnicas; em particular, sobre diferentes aspectos da formulação e manejo das interpretações, transferência, setting psicanalítico e, principalmente, contratransferência.

Seu artigo mais importante e revolucionário, “Contratransferência”, foi apresentado pela primeira vez em 1949, no 16º Congresso Internacional de Psicanálise da IPA. Este artigo foi considerado um divisor de águas na história da técnica psicanalítica, pois Heimann iniciou o questionamento da postura defensiva dos analistas em formação. Foi divisor de águas também, no relacionamento com Klein, pois provocou o rompimento das duas. Klein solicitou a Heimann que retirasse seu artigo do Congresso da IPA, pois estava desconfiada do potencial mau emprego deste conceito. Heimann, contudo, recusou-se a retirar o artigo e assumiu sozinha o crédito pela importante inovação.

A contribuição de Paula Heimann foi a introdução do conceito de contratransferência, que menciona a delicada questão dos sentimentos do analista pelos seus pacientes. O artigo defende a idéia que o analista utilize sua “resposta emocional” durante a sessão analítica como guia, e sirva como instrumento de investigação do inconsciente do paciente.

O polêmico artigo influenciou muitos outros autores durante as décadas de 50 e 60, como Money-Kyrle, Leon Grinberg e Heinrich Racker e, mais tarde, Brenman Pick (1985) e Rosenfeld (1987).

Heimann já tinha proporcionado fervorosas discussões sobre outros conceitos psicanalíticos, como sublimação e instinto de morte (1942, 1952), ainda sob o ponto de vista kleiniano, mas acabou revisando-os em artigos posteriores (1959 e 1964).

Suas importantes contribuições serviram para produtivas discussões em vários Congressos Internacionais de Psicanálise (1962, 1964, 1966, 1970). Seu esforço serviu para clarear idéias e, principalmente, estabelecer o importante conceito de contratransferência no processo psicanalítico.

Bibliografia

  • Heimann, Paula (1942), “A contribution to the problem of sublimation and its relation to processes of internalization”, Int. J. Psycho-Anal., 23:8-17
  • Heimann, Paula. (1950). On counter-transference. International Journal of Psycho-Analysis, 31, 81-84.
  • ——. (1952). Certain functions of introjection and projection in early infancy. In Klein, Heimann, Isaacs, and Riviere (Eds.) Developments in Psycho-Analysis (p. 122-168). London, Hogarth.
  • _ _.(1960), “Counter-transference”, Br. J. Med. Psychol., 33:9-15
  • ——. (1962). Contribution to the discussion of “The curative factors in psycho-analysis”. International Journal of Psycho-Analysis,43, p. 228-231.
  • ——. (1989). About children and children-no-longer. Collected papers of Paula Heimann 1942-1980. M. Tonnesmann, London/New York: Tavistock Publications/Routledge.
  • King, Pearl H.M., and Steiner, Riccardo. (1991). The Freud-Klein controversies 1941-1945. London/New York: Tavistock Publications/Routledge.
  • Heimann, Paula e Issacs, Susan (1952), “Regression”, em Melanie Klein, Paula Heimann, Susan Isaacs e Joan Riviere (orgs), (1952), Developments in psycho-analysis,Hogarth,p.169-97.
  • Heimann, Paula e Valenstein, Arthur (1972), “The psycho-analytic concept of aggression”, Int. J. Psycho-Anal., 53:31-5

Piera Aulagnier (1923 - 1990)

“No momento em que a boca encontra o seio, ela encontra e absorve um primeiro gole do mundo. Afeto, sentido, cultura estão co-presentes e são os responsáveis pelo gosto das primeiras gotas de leite”. (Piera Aulagnier).

Nascida em 19 de novembro# de 1923 em Milão, na Itália, Piera Spairani Aulagnier é considerada uma importante psicanalista que se notabilizou por desenvolver, entre outros trabalhos, temas relacionados à feminilidade, às perversões e à clínica das psicoses. Entre os muitos livros que publicou destacam-se: A violência da interpretação (1975), Os destinos do prazer (1979), Em busca do sentido (1980) e O aprendiz de historiador e o mestre bruxo (1984).

Aulagnier viveu no Egito durante a II Guerra Mundial e, posteriormente, formou-se em medicina em Roma. Radicada em 1950 em Paris, onde terminou sua especialização em psiquiatria, analisou-se com Jacques Lacan de 1955 a 1961 e foi uma de suas discípulas prediletas, assumindo o cargo de chefe do Departamento da Escola Freudiana de Paris. Em 1969, após desavenças com Lacan sobre a aceitação de candidatos – o chamado passe – deixou a instituição, associando-se a outros analistas dissidentes que formaram o “Quarto Grupo”, denominado atualmente Organização Psicanalítica da Língua Francesa, com enfoque sociológico e culturalista.

Durante os dez primeiros anos como psiquiatra, trabalhou com pacientes psicóticos, tendo organizado vários seminários no Hospital Sainte-Anne, em Paris, que acabou sendo o principal local da transmissão de suas idéias. Posteriormente, Aulagnier veio a conceber uma renovadora proposta metapsicológica, dando origem a um modelo de aparelho psíquico a partir de suas observações e experiências com pacientes psicóticos. Uma das contribuições originais de Aulagnier é o conceito de processo originário, que considerou anterior ao processo primário. Para a autora, a atividade psíquica é regida por três modos de funcionamento: os processos originário, primário e secundário, cada qual com uma forma específica de inscrever suas representações no psiquismo.

O processo originário inscreve suas representações sob a forma de pictogramas e tem como ponto de partida a boca e o seio – momento inaugural da atividade psíquica para a autora. A boca e o seio constituiriam uma unidade indissociada que forma uma zona sensorial chamada por ela de imagem do objeto soma complementária, responsável pela organização do pictograma. Para Aulagnier, o psiquismo do bebê não registra que o estímulo gerador da representação veio do mundo externo, e sim que foi engendrado por ele próprio. Todos esses conceitos adquiriram importância para o entendimento e manejo clínico dos processos psicóticos.

Formulou também a chamada teoria do encontro, que se dá entre o corpo do bebê, o corpo da mãe e o inconsciente materno. Essa situação de encontro mãe-bebê possibilitará as três produções psíquicas relativas aos processos originário, primário e secundário. Para Aulagnier, as pessoas têm uma potencialidade psicótica que pode vir ou não a se manifestar por meio dos sintomas. Sobre a relação mãe-bebê, Aulagnier disse que começa antes mesmo de a criança existir, já pelo lugar que ela ocupa no inconsciente materno enquanto objeto de desejo, o que poderá ser elucidado somente por uma análise. Pode-se tomar como ponto de partida dessa relação o momento da fecundação. Segundo a autora, ser mãe representa, para toda mulher, a experiência onde ela reviverá da maneira mais forte o que foi sua primeira relação. No caso de a mulher ter vivido essa experiência de forma profundamente perturbada, sua gravidez pode ser a causa de um retorno maciço do recalcado, que, se não conduz a uma psicose, torna psicogênica sua relação com a criança.

A psicanalista casou-se primeiramente com um francês de Borgonha, de quem herdou o sobrenome Aulagnier, e com ele teve seu único filho, que também se formou em psiquiatria. Depois de alguns anos, separou-se e casou com o filósofo, escritor e psicanalista Cornelius Castoriadis, com quem compartilhou trabalhos e discussões teóricas. Após anos de casamento, separou-se de Castoriadis. Aulagnier faleceu no dia 31 de março de 1990, em Paris, deixando em todos os que a conheceram a lembrança de seu interesse incansável e apaixonado pela psicanálise e também pelas questões fundamentais do ser humano.

Referências Bibliográficas:

  • AULAGNIER, P. Observações sobre a estrutura psicótica. In: KATZ, C. S. (Org) et al. Psicose – Uma leitura psicanalítica. 2 ed. São Paulo: Escuta, 1991.
  • MIJOLLA-MELLOR, S. Aulagnier-Spairani, Piera. In: MIJOLLA, A. Dicionário internacional da psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 2005.
  • PUC-Rio. Parte de tese de mestrado intitulada: O modelo de aparelho psíquico de Piera Aulagnier. Disponível em: http://www2.dbd.puc-rio.br/pergamum/tesesabertas/0410579_08_cap_04.pdf
  • ZIMERMAN, D. E. Vocabulário contemporâneo de psicanálise. Porto Alegre: Artmed, 2001.

Sabina Spielrein (1885-1942)

Sabina Spielrein é considerada uma precursora de muitos conceitos da psicanálise que mais tarde seriam reconhecidos como fundamentais. Ela nasceu em Rostov do Don, sendo a mais velha de cinco filhos. Seu pai, Nikolai Arkadyevich Spielrein, era um próspero comerciante judeu, e sua mãe, Eva Markovna Lyublinskaya, havia estudado odontologia, embora não tenha exercido a profissão. Sabina frequentou o ginásio feminino em Rostov até 1904. Durante seus anos escolares, foram diagnosticados nela sintomas de uma “histeria psicótica”, o que levou seus pais a enviá-la para a clínica psiquiátrica Burghölzli, em Zurique, naquele mesmo ano. Lá, foi tratada por Carl Gustav Jung e recebeu alta como curada em 1905.

No mesmo ano, iniciou seus estudos de medicina na Universidade de Zurique e continuou sua análise de forma privada com C. G. Jung. Da relação terapêutica surgiu um envolvimento amoroso que se tornou o tema de uma famosa correspondência entre C. G. Jung e Sigmund Freud. Em 1909, Jung, que era casado com Emma Jung, deu o relacionamento por encerrado. Sob a orientação de Jung, Spielrein obteve seu doutorado em 1911 com a tese “Sobre o conteúdo psicológico de um caso de esquizofrenia”, sendo esta a primeira dissertação de orientação psicanalítica escrita por uma mulher. Posteriormente, viajou para Viena, onde conheceu Freud e, em outubro de 1911, tornou-se membro da Associação Psicanalítica de Viena (WPV).

Em 1912, foi publicada a obra teórica mais importante de Sabina Spielrein, “A destruição como causa do vir-a-ser”. Nela, ela examinou a função do instinto de morte como componente destrutivo do instinto sexual, antecipando reflexões sobre a pulsão de morte às quais Freud se referiria mais tarde em “Além do Princípio do Prazer”. Segundo sua tese, de forma análoga à concepção biológica — em que, na união da célula masculina com a feminina, cada uma é aniquilada em sua unidade para que uma nova vida surja —, o instinto de reprodução também seria, psicologicamente, um instinto de vir-a-ser e de destruição: a destruição do eu individual, acompanhada por sentimentos de defesa, formaria o pressuposto para a criação, associada a sensações de prazer.

Sabina Spielrein casou-se em 1912 com o médico russo-judeu Pawel Naumowitsch Scheftel (1881-1937) e, um ano depois, nasceu sua filha Renata. De 1912 a 1914, viveu com sua família em Berlim, onde publicou vários ensaios psicanalíticos sobre a análise infantil e de sonhos. Após o início da Primeira Guerra Mundial, mudou-se para a Suíça, enquanto seu marido retornou à Rússia. A partir de 1915, Sabina viveu em Lausanne, onde fundou o grupo de estudos psicanalíticos Cercle Interne em 1919. Em 1921, mudou-se para Genebra e tornou-se membro da Sociedade Psicanalítica de Genebra, liderada por Edouard Claparède. Ela ministrou aulas no Instituto Jean-Jacques Rousseau e publicou numerosos trabalhos, incluindo relatos de análise infantil baseados na infância de sua própria filha. Em 1922, transferiu-se da WPV para a Sociedade Suíça de Psicanálise. Seu analisando mais famoso nesse período foi Jean Piaget.

Durante seu tempo em Genebra, ela desenvolveu uma abordagem psicanalítica fundamentada na linguística, com foco no desenvolvimento da linguagem na primeira infância e na conexão entre fala e pensamento na criança. Ela distinguiu uma fase autística, uma mágica e uma social no desenvolvimento da linguagem em lactentes e crianças pequenas, apontando a analogia entre o pensamento infantil, a afasia e o pensamento inconsciente.

Em 1923, Sabina Spielrein retornou com sua filha para a então União Soviética. Estabeleceu-se em Moscou, tornando-se membro e analista didata da Associação Psicanalítica Russa (RPV), fundada um ano antes. Ela ministrou aulas e seminários sobre análise infantil no Instituto Estatal de Psicanálise e trabalhou como médica em um ambulatório. Além disso, foi diretora do departamento de psicologia infantil da Universidade de Moscou e colaboradora no laboratório de orfanato de Vera Schmidt. Em 1924, Sabina mudou-se novamente para sua cidade natal, Rostov, para viver com seu marido Pavel Scheftel, e em 1926 teve sua segunda filha, Eva. Trabalhou como pedóloga no ambulatório escolar profilático de Rostov e tratou crianças e adultos na policlínica psiquiátrica. Apesar da proibição da pedologia e da psicanálise em 1936, ela provavelmente continuou sua atividade psicanalítica até o início da década de 1940. Em julho de 1942, a Wehrmacht alemã ocupou Rostov do Don. Sabina Spielrein e suas duas filhas foram assassinadas em agosto de 1942, junto com outros 20.000 judeus de Rostov, por um comando do esquadrão da morte Einsatzgruppe D.

Hermine Hug-Hellmuth (1871-1924)

Hermine Hug-Hellmuth foi a primeira psicanalista infantil e a inventora da ludoterapia, técnica que seria posteriormente desenvolvida por Melanie Klein e Anna Freud. Nascida em Viena, Hermine cresceu em uma família católica, sendo filha de Hugo Hug, Cavaleiro de Hugenstein, um oficial do exército imperial austríaco extremamente rigoroso, e de sua esposa Ludowica, nascida Leiner, que era uma mulher culta e musical, mas que faleceu precocemente em 1883. Hermine Hug von Hugenstein completou sua formação como professora e lecionou em escolas populares antes de ingressar na faculdade de filosofia da Universidade de Viena em 1897. Após mudar de área para a física, obteve seu doutorado em 1908 com uma tese sobre radioatividade.

Durante seus estudos, conheceu o neurologista vienense Isidor Sadger, que se tornou seu analista e a introduziu no círculo de Sigmund Freud. Em 1911, publicou sob o pseudônimo de H. Hellmuth seu primeiro trabalho psicanalítico, uma análise do sonho de um menino de cinco anos e meio; tratava-se de um relato de caso sobre seu sobrinho Rolf Hug, filho de sua meia-irmã Antonia Hug. Após a morte de Antonia em 1915, Hermine obteve a custódia do sobrinho, enquanto Isidor Sadger tornou-se seu tutor legal.

Após a publicação de seu artigo sobre a audição colorida, uma autoanálise de suas próprias sinestesias, Hermine Hug tornou-se membro do conselho editorial da revista Imago em 1912 e colaboradora frequente da Revista Internacional de Psicanálise Médica. Em 1913, publicou a monografia Da vida psíquica da criança, na qual buscou fornecer uma base empírica para a teoria de Freud sobre a sexualidade infantil. Após proferir sua palestra introdutória sobre o trabalho de Stanley Hall sob uma perspectiva psicanalítica, ela se tornou membro pleno da Associação Psicanalítica de Viena (WPV) em outubro de 1913. O foco de Hermine Hug-Hellmuth residia na psicologia infantil e na pedagogia. Ela ministrou palestras no clube feminino vienense sobre novos caminhos para a alma infantil e, a partir de 1919, passou a realizar psicanálises no departamento de educação terapêutica da clínica pediátrica de Viena. Em seu tratado sobre a técnica da análise infantil, apresentado em 1920 no Congresso Psicanalítico Internacional em Haia, ela antecipou muitos conceitos que Anna Freud viria a adotar posteriormente. Hermine defendia uma “análise terapêutico-pedagógica” para transmitir valores aos jovens pacientes e educá-los como indivíduos de força de vontade, sendo a primeira a substituir a técnica da associação livre na análise infantil pelo uso do brincar com a criança.

Quando o Diário de uma adolescente, editado por ela, foi publicado em 1919 e causou grande comoção devido à revelação de fantasias sexuais, surgiram dúvidas sobre sua autenticidade, sendo a psicóloga do desenvolvimento Charlotte Bühler a crítica mais veemente. Paralelos biográficos e uma análise linguística realizada por Hedwig Fuchs sugerem que a própria Hermine Hug-Hellmuth teria sido a autora da obra. Sigmund Freud ordenou mais tarde que o diário fosse retirado do mercado livreiro. Em 1921, Hermine foi convidada para ir a Berlim, onde ministrou palestras durante dois meses sobre análise infantil e educação psicanalítica no Instituto Psicanalítico de Berlim. Ela tornou-se amiga de Karen Horney, embora defendesse uma visão de mundo e um papel feminino mais biológicos. Em 1922, assumiu a direção do programa de cursos da WPV destinado a profissionais da área da educação. Sob sua liderança, foi inaugurado em 1923 o primeiro centro de aconselhamento educacional de orientação psicanalítica no ambulatório da WPV. Em setembro de 1924, Hermine Hug-Hellmuth foi assassinada por seu sobrinho Rolf Hug, então com 18 anos, após ela se recusar a continuar cedendo às suas demandas financeiras. Na esfera pública, a culpa pelo desenvolvimento do sobrinho — que passou de objeto de análise da tia a seu assassino — foi atribuída à própria psicanálise.

Virgínia Leone Bicudo (1910-2003)

Virgínia Leone Bicudo, pioneira da psicanálise brasileira, nasceu em São Paulo. Sua mãe, Giovanna (Joaninha) Leone, era filha de imigrantes italianos, enquanto seu pai, Theophilo Bicudo, um funcionário dos Correios, era filho de uma escravizada afro-brasileira alforriada. Após concluir seu exame para o magistério em 1930, Virgínia completou sua formação como educadora sanitária no Instituto de Higiene e Saúde Pública de São Paulo até 1932. Posteriormente, estudou ciências sociais na Escola de Sociologia e Política da Universidade de São Paulo, onde, em 1945, escreveu sua tese de conclusão de curso sobre o racismo entre pessoas negras. Quando Durval Marcondes, fundador da Sociedade Brasileira de Psicanálise, assumiu a primeira cátedra de psicanálise da Escola Livre de Sociologia e Política, criada em 1939, ela tornou-se sua assistente em 1941.

Assim como Marcondes, Virgínia foi, em 1937, uma das primeiras analisandas didatas da psicanalista alemã Adelheid Koch, que havia emigrado para o Brasil. Em 1944, como o único membro sem formação médica do Grupo Psicanalítico de São Paulo, ela foi uma das iniciadoras da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Tornou-se membro efetivo da instituição em 1945 e, em 1955, alcançou a posição de analista didata.

Após passar por uma nova análise no início da década de 1950 com o kleiniano Frank Philips, ela viajou para Londres em 1955 para aprofundar seus conhecimentos na Sociedade Psicanalítica Britânica e na Clínica Tavistock. Retornou ao Brasil em 1960, consolidando-se como uma influente representante da escola de Melanie Klein no país.

De 1962 a 1975, Virgínia Bicudo foi diretora do Instituto de Psicanálise de São Paulo, onde garantiu a inclusão da análise infantil no programa de formação e lutou para que analistas leigos (não médicos) também fossem formados na SBPSP. Em 1967, foi cofundadora da Revista Brasileira de Psicanálise, integrando seu conselho editorial até 1979. Como uma das primeiras professoras universitárias negras do Brasil, lecionou psicologia na Faculdade de Filosofia e na Escola Livre de Sociologia e Política da USP, bem como na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.

Na década de 1970, Virgínia Leone Bicudo organizou o Grupo de Estudos Psicanalíticos de Brasília (GEPB), que, como Sociedade de Psicanálise de Brasília (SPB), foi reconhecido provisoriamente pela Associação Psicanalítica Internacional (IPA) em 1999 e como membro pleno em 2004. Em sua homenagem, o instituto de formação da SPB foi nomeado Instituto de Psicanálise Virgínia Leone.