Autor: Wallace Caetano Estevão (Instituto Nebulosa Marginal e Faculdade de Tecnologia de São Paulo (FATEC-SP).
Resumo: Este trabalho discute de que modo o laço entre mulheres na psicanálise pode ser compreendido como espaço de inclusão, escuta e pertencimento. Parte-se de um ensaio teórico, de abordagem qualitativa, desenvolvido por meio de pesquisa bibliográfica e documental, articulando três planos analíticos: a historicidade da presença feminina na constituição da psicanálise brasileira; a crítica contemporânea à neutralidade clínica; e as contribuições de perspectivas interseccionais, decoloniais e clínico-políticas para pensar experiências atravessadas por raça, migração, refúgio e desigualdade. No plano historiográfico, retomam-se as trajetórias de Adelheid Koch, Virgínia Bicudo, Lygia Amaral e Judith Andreucci para sustentar que a presença de mulheres foi constitutiva da formação psicanalítica no Brasil, não apenas no âmbito institucional, mas também na produção de vínculos e condições de pertencimento. No plano contemporâneo, dialoga-se com autoras e autores que interrogam a clínica a partir da interseccionalidade, da racialização e da crítica à neutralidade abstrata, mostrando que a escuta psicanalítica precisa reconhecer as condições históricas e sociais do sofrimento. Sustenta-se, por fim, que o laço entre mulheres não designa uma comunidade homogênea, mas uma mediação relacional capaz de favorecer reconhecimento, validação da experiência e inscrição simbólica, sobretudo em contextos de exclusão, silenciamento e não pertencimento. Conclui-se que esse laço pode operar, na psicanálise contemporânea, como condição crítica de renovação da escuta e ampliação da inclusão simbólica.
Autora: Ana Cristina Borges López M. Francisco (UNIFESO/PROPED UERJ/FAPERJ / Membro do MUNDIME) e Catarina Borges López M. Francisco (Albert Einstein Centro de Educação em Saúde)
Resumo: O estudo propõe uma reflexão sobre a trajetória de Marialzira Perestrello, médica e psicanalista carioca, como figura relevante para compreender a presença das mulheres na constituição da psicanálise no Brasil. Partindo de uma perspectiva histórico-crítica, o objetivo geral é examinar o modo como sua atuação profissional se inscreveu em um campo atravessado por disputas de gênero, saber médico, autoridade científica e reconhecimento institucional. Em específico, analisar o olhar de uma história da psicanálise frequentemente narrada a partir de nomes masculinos e europeus, destacando a contribuição de uma mulher brasileira para a consolidação da prática psicanalítica no Rio de Janeiro. Busca-se investigar como sua formação médica, sua inserção em instituições psicanalíticas e sua produção intelectual dialogam com questões relativas à feminilidade, à escuta clínica e ao lugar da mulher como sujeito de saber. Nesse sentido, não se pretende apenas recuperar uma biografia, mas discutir os efeitos simbólicos e políticos da presença feminina em espaços de produção teórica e clínica. Ao tomar Marialzira Perestrello como eixo de análise, o estudo contribui para ampliar o debate sobre mulheres na psicanálise, articulando história, clínica e gênero. Conclui-se que revisitar trajetórias como esta é fundamental para reconhecer a participação das mulheres na construção da psicanálise brasileira e para problematizar apagamentos ainda presentes na memória institucional do campo psicanalítico, especialmente quando se considera a relação entre transmissão, filiação teórica e legitimidade profissional. Assim, o estudo reafirma a importância de uma historiografia psicanalítica sensível às marcas de gênero e às experiências brasileiras.
Autoras: Suênia de Lima Duarte (Doutoranda em Psicologia pela UNIFOR- FUNCAP); Fabíola Sousa Siqueira (Mestre em Psicologia pela UNIFOR-FUNCAP); Carla Holanda Façanha (Doutoranda em Psicologia pela UNIFOR), Leônia Cavalcante Teixeira.
Resumo: A partir da escuta clínica em psicanálise de mulheres que se encontram em contextos de violência de gênero, uma pergunta se impõe: que corpo chega à clínica quando quem fala é uma mulher atravessada pelo racismo, pelo sexismo e pela desigualdade social? A violência é compreendida não como um acontecimento externo, mas como uma experiência que incide sobre o corpo, o desejo, a angústia e o laço social. A partir disso, nomeia-se um problema clínico-político: como escutar o sofrimento de mulheres negras sem universalizar “a mulher” e sem desconsiderar que o inconsciente também se inscreve em corpos marcados pela história social do racismo? Em diálogo com Isildinha Baptista Nogueira, considera-se o corpo negro marcado por significações inconscientes produzidas pelo racismo. Com Neusa Santos Souza, interroga-se o custo psíquico do ideal branco e a possibilidade de construção de outro ideal de si. Raça, gênero e classe, portanto, não chegam à clínica como elementos exteriores ao sujeito, mas como marcas que incidem sobre o corpo, a palavra, o desejo e a transferência. Escutar mulheres negras em situação de violência exige considerar as condições históricas e inconscientes pelas quais uma mulher pode, ou não, encontrar possibilidades de dizer de si diante dos efeitos do patriarcado e do racismo em sua constituição subjetiva.
Autoras: Adriana Abissamra, Alexandra Grigorieff Nüske, Carla Cervera Sei, Maria Fernanda Liberato Beduschi (Associação Psicanalítica de Porto Alegre – APPOA)
Resumo: “O que faz com que alguém se torne psicanalista e em que saber se funda aquele que se autoriza a praticar a análise?” É com essa pergunta que Maud Mannoni inicia sua autobiografia, O que falta à verdade para ser dita. A interrogação atravessa toda sua produção, que é marcada pela articulação entre clínica, instituição e laço social.
Mannoni carrega uma marca marginal e estrangeira dentro da psicanálise e uma circulação pelas fronteiras, seja em interlocução com diferentes campos do saber, seja com correntes psicanalíticas que extrapolavam os muros franceses. Ela produziu uma obra de relevância, tendo expressiva participação na luta antimanicomial. Criou uma escola inovadora com crianças e adolescentes autistas, psicóticos e neuróticos graves, questionando práticas de exclusão e inventando novos modos de acolhimento da diferença, proporcionando um espaço de convivência e de aprendizagem. Este trabalho propõe uma aproximação à sua trajetória e ao seu pensamento a partir da experiência da Escola Experimental de Bonneuil-sur-Marne, fundada por ela em 1969. Concebida como um lugar de vida, Bonneuil constituiu uma experiência institucional singular, orientada pela aposta na palavra e pelas diversas aberturas oferecidas. Tomando como ponto de partida uma experiência de estágio realizada nessa instituição, buscamos refletir sobre a atualidade do legado de Mannoni. Embora seu nome hoje tenha sofrido um apagamento, sua obra permanece viva nas práticas e na instituição que ajudou a construir, oferecendo contribuições fundamentais para pensar a psicanálise como espaço de acolhimento da diferença, resistência à exclusão e criação de novos modos de existência.
Autora: Luciene Fernandes (Universidade Federal da Bahia – UFBA)
Resumo: Este trabalho propõe uma releitura da obra de Neusa Santos Souza em diálogo com Frantz Fanon e contribuições contemporâneas dos estudos sobre trauma racial, buscando compreender os efeitos da colonialidade na constituição subjetiva de mulheres negras. Parte-se da compreensão de que o racismo não opera apenas como estrutura social, mas também como experiência psíquica que atravessa os processos de identificação, pertencimento e reconhecimento. A partir das contribuições de Neusa Santos Souza acerca dos efeitos subjetivos do racismo na constituição do sujeito negro, discute-se como determinadas experiências contemporâneas de mulheres negras podem estar relacionadas a formas persistentes de hipervigilância, hiperresponsabilização e adaptação constante às demandas do ambiente. Em diálogo com Frantz Fanon, argumenta-se que a necessidade histórica de antecipação da violência e monitoramento contínuo de si pode produzir simultaneamente estratégias de sobrevivência, sofisticação perceptiva e sofrimento psíquico. O trabalho apresenta, ainda, uma hipótese teórica em desenvolvimento que busca compreender tais processos como efeitos duradouros da colonialidade sobre a subjetividade feminina negra. Ao retomar a contribuição pioneira de Neusa Santos Souza para a psicanálise brasileira, pretende-se contribuir para a ampliação do debate sobre raça, gênero e sofrimento psíquico, bem como para a valorização de autoras negras historicamente invisibilizadas na produção psicanalítica.
Autora: Amanda Alexandroni (Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica da UFRJ)
Resumo: Neste trabalho, buscamos resgatar as contribuições da filósofa e feminista Luce Irigaray em torno da diferença sexual na psicanálise. Por um lado, essa diferença pode ser pensada a partir de um real irredutível, como uma marca que impede que os sujeitos falantes façam “Um”. Por outro, o pensamento de Luce Irigaray demonstra como as construções em torno da diferença sexual na psicanálise não partiram de uma ética da alteridade, mas de uma diferença organizada a partir de uma única referência: o homem, o masculino, o falo. Irigaray critica o modo como as teorizações sobre a sexualidade feminina são formuladas a partir desses referenciais, relegando as mulheres a uma posição de falta e de subsunção à lógica masculina. A feminista belga propõe novas maneiras de pensar as mulheres e o gozo feminino. Longe de uma proposta que essencialize “A Mulher” — o que significaria repetir o caminho percorrido pela psicanálise até então —, Irigaray introduz fissuras nas representações do feminino como forma de enfrentamento à clausura produzida pela lógica masculina. Por meio de leituras que atravessam a fenomenologia do corpo, o sistema linguístico, a concepção do inconsciente, entre outros aspectos, a autora desestabiliza grande parte do que se encontra canonizado como teoria da sexualidade na psicanálise. Consideramos o resgate da obra de Irigaray relevante não apenas por suas contribuições teóricas para pensar a radical alteridade em jogo na diferença sexual, mas, sobretudo, por seu alcance político: fazer ecoar uma voz que foi alvo de censura explícita nos anos 1970.
VII. Julia Kristeva: uma psicanalista irreverente
Autora: Mani Alvarez (Associação Livre de Psicanálise – Campinas)
Resumo: Julia Kristeva, psicanalista, filósofa, escritora, é reconhecida como uma das vozes femininas contemporâneas que dialogam com a psicanálise a partir de bases linguísticas, feministas e filosóficas. Suas teorias sintetizam elementos de pensadores como Jacques Lacan, Michel Foucault e o russo Mikhail Bakhtin. Duas tendências distintas caracterizam seus escritos: uma fase estruturalista-semiótica inicial e uma fase psicanalítico-feminista posterior. Sua contribuição mais importante para a psicanálise foi a distinção entre os aspectos semióticos e simbólicos da linguagem. O semiótico, que se manifesta no ritmo e no tom, está associado ao corpo materno. O simbólico, por outro lado, corresponde à gramática e à sintaxe e está associado ao significado. A importância de seus argumentos está na distinção entre o Simbólico, regido pela ordem, pela gramática, pela lógica, pelo sentido, e o Semiótico, a estrutura pré-verbal, pulsional, rítmica, corporal. Por estar enraizado no corpo materno, nas emoções e nos afetos não simbolizados, a expressão semiótica aparece na linguagem como musicalidade e poesia, ao romper com a lógica linear, ao privilegiar o ritmo, a sonoridade, as imagens afetivas. Kristeva não propõe abolir o simbólico, mas abrir fendas nele — como Nietzsche propôs em relação à moral e à linguagem da Verdade. Assim, o semiótico atua como uma força revolucionária dentro da linguagem, um devir constante que permite a criação poética, a emergência do novo e a ruptura com as normas patriarcais.
Autora: Janaína Marina Rossi (Instituição Casa Mundanas – Chile)
Resumo: Elizabeth Severn é mais conhecida por ter sido a analisanda de Sándor Ferenczi, muito embora tenha sido ela mesma psicanalista e autora de livros. No entanto, desejo colocar aqui o ser paciente como ato de criação. Encontrando-se as mulheres geralmente como analisandas na história da psicanálise, qual seria o crédito feminino invisível na criação de conceitos no campo? Parte-se da ideia de que eles surgiriam em co-autoria, num espaço de mutalidade instituído pelo par analítico. Carla Lonzi, feminista italiana e crítica de arte, demonstrou que a criação nunca é em solitário, sempre se devendo a uma teia relacional possibilitadora, denunciando o “gênio solitário” enquanto paradigma masculino. A filósofa Luce Irigaray diria que o mestre viria ocultando a fonte relacional do saber e da criação, apagando até mesmo a origem de seu Ser no colo materno. Ferenczi é conhecido por ter trazido um feminino inaudito à psicanalise, o qual não teria sido possível sem a presença da escuta da diferença sexual em sua criação, no experimento da “análise mútua” proposto por Severn e no qual teve que se enfrentar do seu (e de tantos homens) medo e trauma ao feminino, se vendo despir da masculinidade fria psicanalítica e entrando em contato com o mais recalcado da cultura patriarcal: a mãe. Na análise mútua, ambos rejeitaram a dialética Sujeito-Objeto, intercalando as posições, colocando o analista em situação de receptividade, o que trouxe uma revolução ao campo psicanalítico que seu tempo histórico tragicamente foi incapaz de dar conta.
Resumo: Esta pesquisa questiona o modo como a historiografia tradicional da psicanálise frequentemente reduz o legado de Anna Freud à condição de filha de Sigmund Freud ou à elaboração conceitual da Psicologia do Ego. Apoiado em uma perspectiva arqueológica e genealógica inspirada em Foucault, o estudo resgata a relevância de sua atuação voltada ao campo social e à proteção jurídica da infância. Investiga-se o deslocamento crítico promovido pelas primeiras analistas, que retiraram a psicanálise do isolamento dos consultórios burgueses para inseri-la diretamente nas instituições e políticas públicas da Viena Vermelha das décadas de 1920 e 1930. A partir das formulações históricas trazidas, Elizabeth Danto, demonstra-se que as propostas pedagógicas de atendimento infantil capitaneadas por esse grupo funcionaram como verdadeiros espaços de engajamento coletivo. Evidencia-se que formulações contemporâneas cruciais, a exemplo dos conceitos de genitor psicológico e de tempo da criança, não derivaram de um isolamento clínico tradicional. Pelo contrário, tais construções nasceram da convivência afetiva e da parceria intelectual de Anna Freud com Dorothy Burlingham no cotidiano de creches de guerra e abrigos comunitários. O trabalho analisa também a circulação do jornal de pedagogia psicanalítica editado pelo círculo vienense, cujos debates influenciaram os projetos de reforma escolar e a recepção da psicanálise pela classe médica no Brasil. Frente à severa vulnerabilidade que atinge a população jovem na atualidade, essa práxis se impõe para desconstruir velhas lógicas tutelares e o assistencialismo puramente material, recolocando o desamparo como um debate ético que exige espaços de escuta e vínculos contínuos nas instituições de cuidado.
Resumo: Lou Andreas-Salomé (1861-1937) destacou-se como uma intelectual pioneira e multifacetada, cuja trajetória pela literatura, filosofia e psicanálise rompeu as barreiras sociais e de gênero de seu tempo. Conhecida por sua postura autoconfiante e audaz, estabeleceu diálogos significativos com figuras proeminentes de sua época como Nietzsche, Rilke e Freud. Em 1911, Lou Andreas-Salomé e Sigmund Freud conheceram-se no 3º Congresso da Sociedade Psicanalítica Internacional, na cidade de Weimar. Lou, que foi a primeira mulher a ingressar no Círculo Vienense de Psicanálise, estabeleceu com Freud uma relação de respeito mútuo, marcada por uma profunda troca teórica. Este trabalho dedica-se à análise da correspondência mantida entre ambos de 1912 a 1936, estendendo-se até o falecimento de Lou, em 1937, pouco antes de seu 76º aniversário. Nesses registros, a teoria e a vida pessoal se entrelaçam, revelando uma amizade duradoura em que Lou ocupou o papel de conselheira e confidente de Freud. Além de ser uma importante interlocutora do criador da psicanálise, foi uma protagonista fundamental na construção e no questionamento do pensamento psicanalítico, o que dialoga com as discussões atuais sobre o psiquismo feminino. Apesar de sua importância intelectual e de sua vasta obra teórica e ficcional, Salomé foi frequentemente reduzida ao papel de “musa” ou femme fatale na história, um estigma que pesquisas recentes têm buscado superar, ao resgatar o valor de sua trajetória e a originalidade de seu pensamento.
Resumo: Este trabalho apresenta o estudo de um caso clínico com o objetivo de discutir as armadilhas da violência psicológica nos relacionamentos, utilizando como base o pensamento da psicanalista brasileira Manuela Xavier. Seguindo as normas éticas, todos os dados da paciente foram completamente alterados para proteger sua identidade. O caso acompanha uma mulher que vivia um relacionamento profundamente destrutivo, mas não conseguia perceber o abuso porque o parceiro nunca a havia agredido fisicamente. A partir da teoria adotada, analisamos como a sociedade ensina as mulheres a se responsabilizarem sozinhas pela felicidade do casal. O parceiro se aproveita disso para atacar a autoestima e a percepção da realidade da paciente, fazendo com que ela se sinta culpada por tudo. Sem uma marca física que comprove a agressão, a mulher passa a duvidar de si mesma e a acreditar que ela é a “errada” ou a “louca” da história. No espaço das sessões, o trabalho clínico buscou acolher essa dor e ajudar a paciente a enxergar essa teia invisível de manipulação. O foco foi fazê-la parar de buscar a aprovação do outro e redescobrir os seus próprios desejos e caminhos. Conclui-se que a escuta psicanalítica é essencial para que a mulher consiga dar nome ao que viveu e reconquistar o controle da sua própria vida.
Resumo: “A gente combinamos de não morrer” é o título de um conto da escritora brasileira Conceição Evaristo, criadora do conceito literário de escrevivência, que ela define como experiência da coletividade do povo negro, escrita na perspectiva e na vivência de mulheres negras. Partimos de relevantes obras de psicanalistas negras brasileiras para a compreender o racismo numa cultura marcada pela branquitude como ideal de eu, causando sofrimentos psíquicos ao povo afro-diaspórico. O objetivo desse trabalho é articular literatura e psicanálise para compreender os fenômenos onde a escrevivência aparece nos momentos de escrita em que o inconsciente age, retratando os dilemas existenciais, o cotidiano e as vulnerabilidades do povo negro. Para a psicanálise, é desse lugar de inscrições que surgem histórias que não foram escritas, mas persistem como rastros na memória de um povo, pois o racismo não se limita a atos e falas conscientes, ele se inscreve no inconsciente de forma traumática. Utilizamos como metodologia a análise teórica fundamentada em obras das psicanalistas Neuza Santos Souza, Lélia Gonzales e Isildinha Nogueira. Conclui-se que a articulação das autoras, ancorada pela literatura, é uma ferramenta potente na descolonização da prática psicanalítica no Brasil, em busca de uma escuta clínica disruptiva que denuncia o silenciamento epistêmico da comunidade afro-brasileira, principalmente mulheres negras, a fim de reconhecer as singularidades do sofrimento decorrente da sintomática do racismo como neurose cultural brasileira.
Resumo: Conheci Márcia Arán nas pesquisas de meu TCC sobre a questão do gênero da Psicanálise. E assim descobri que ela foi uma pioneira deste tema no Brasil. Sua mais de dezena de artigos cobrindo gênero e transexualidade só não foi mais vasta pela sua partida precoce, por um câncer, em 2011, aos 46 anos. Márcia nasceu em 1964, em Caxias do Sul, na Serra Gaúcha. Foi a partir da Faculdade de Psicologia, na UCS, terminada em 1986, que viria a se engajar na luta feminista e nos movimentos sociais, participando da Democracia Socialista. Em 1988, mudou-se para o Rio de Janeiro e fez especialização em Psiquiatria Social na Fundação Oswaldo Cruz e dali partiu para mestrado (1997) e doutorado (2001) na UERJ em Saúde Coletiva. Na década de ’90, com Joel Birman e outros psicanalistas da EBEP ajudou a revolucionar a Psicanálise no Brasil, mergulhando nas questões de gênero, especialmente no polêmico assunto das transidentidades, buscando despatologizar esses sujeitos. Atuou no Serviço de Psicologia Médica do HUCFF/UFRJ e desenvolveu importante trabalho de assistência a pessoas transexuais em acompanhamento ao processo de redesignação sexual. Em 2004 passou a professora visitante da IMS/UERJ levando aulas sobre sexualidade, reprodução e política e encabeçando projetos de pesquisa. Daniela Murta escreve que eram aulas “profundas e agradáveis, objetivas e acolhedoras, um território fértil para novas construções”. Sua tese de doutorado “O avesso do avesso: feminilidade e novas formas de subjetivação”, publicada em livro em 2006, marca sua tentativa de uma nova metapsicologia para o feminino.
Resumo: A temática “As mulheres na psicanálise”, proposta pelo evento Nebulosa Marginal, convoca a uma reflexão desafiadora sobre as autoras que subsidiam a prática clínica. Minha trajetória na psicanálise iniciou-se em 1998, no ambiente universitário, impulsionada por mulheres que ocuparam funções fundamentais: a docente que transmitiu a “peste” freudiana, a orientadora que inseriu a psicanálise na pesquisa e a analista que sustentou a escuta do sofrimento. Evidencia-se, assim, uma discrepância histórica entre as mesas de transmissão teórica, majoritariamente masculinas, e o cotidiano silencioso da práxis ancorada por mulheres. No plano teórico contemporâneo, a inquietação inicial encontra respaldo em Lia Pitliuk e seus estudos sobre os atendimentos remotos, denominados “EmLinha”. A autora afirma a viabilidade dessa modalidade técnica quando alinhada à capacidade do analisante de usar o objeto e experimentar a alteridade. Portanto, espacialidade, temporalidade e corporeidade são escutadas na mediação tecnológica, superando a concepção do virtual como menor ou provisório. Desde a pandemia de Covid-19, essa prática foi legitimada institucionalmente. Diante disso, emergem as repercussões dessa modalidade para as mulheres, que constituem a maioria na minha clínica. O atendimento “EmLinha” promoveu a democratização do acesso: para pacientes sobrecarregadas por jornadas duplas, tornouse a única possibilidade de escuta. Similarmente, como analista, essa tecnologia viabilizou conciliar a maternidade, os cuidados com a saúde e o exercício profissional no ambiente doméstico. Conclui-se que a psicanálise mediada por tecnologia atua como um dispositivo político-clínico de inclusão e sustentação do feminino na contemporaneidade.
Resumo: A historiografia crítica feminista tem demonstrado que a psicanálise é um campo marcado por relações assimétricas de poder, com vozes de mulheres sendo sistematicamente silenciadas e desautorizadas (Caropreso; Cromberg, 2025; Naszkowska, 2025; Martins, 2024). O silenciamento teórico e institucional de mulheres na psicanálise pode estar em operação quando ignora-se os efeitos das assimetrias de gênero no setting psicanalítico. Quando a analista é mulher e o paciente é homem, a díade resultante subverte as expectativas culturais tradicionais sobre gênero e poder, produzindo desafios clínicos e teóricos singulares. Propomos que a dificuldade em teorizar a contratransferência de analistas mulheres no atendimento a pacientes homens não é episódica, mas estrutural, decorrendo de um desmentido institucional (Verleugnung) da psicanálise a respeito dos efeitos da assimetria de gênero no setting. Perguntamo-nos como a clínica de analistas mulheres pode contribuir para furar esse desmentido, investigando como essas analistas percebem, nomeiam e manejam os afetos contratransferenciais despertados por questões de gênero. Ao sistematizar esses saberes clínicos produzidos por mulheres, a pesquisa contribui para a inovação da teoria.
Resumo: Quantas vezes ouvimos no consultório mulheres em sofrimento psíquico que invalidam seus próprios sintomas, compreendendo que seu mal-estar nada mais é do que a óbvia sobrecarga social de gênero? Diante desses relatos de sofrimento marcados pelo lugar social da mulher, é possível e adequado manter a escuta analítica neutra? Herman (1992), em Trauma e recuperação, reconhece a importância dos estudos sobre a histeria de Charcot e Freud, entretanto reitera a invisibilidade do sofrimento feminino pautado por questões sociais e políticas, tecendo de forma crítica e construtiva como o diagnóstico da histeria não conseguiu de fato ouvir as mulheres a partir de suas próprias vozes. Para a autora, ao escutar relatos de conteúdos traumáticos até então indizíveis, a analista é convocada ao lugar de testemunha dos efeitos psíquicos provenientes dessa experiência. O trauma que não encontra testemunho pode migrar para o corpo, tornando-se sintoma, muitas vezes sendo representado de forma psicossomática, principalmente em mulheres. McDougall (1991), em Teatros do corpo, identifica a importância do afeto na contratransferência, afinal, no setting são vividas experiências de emoções intensas. A autora, contribuindo para pensarmos no caráter do sintoma e na forma como isso nos afeta, fala do corpo que adoece frente às diferentes formas de sofrimento indizíveis. Quem frequentemente reconhece esse sofrimento é a analista, ao ocupar uma posição de não neutralidade diante do corpo adoecido pelas prováveis vivências traumáticas associadas à condição social de mulher. Este trabalho visa problematizar a neutralidade na escuta de mulheres cujo sofrimento se inscreve no corpo.
Resumo: Este trabalho evoca memórias e legados de Marie Langer, buscando transmitir a complexidade de seu pensamento para a psicanálise latino-americana. Nascida em 1910, no berço da aristocracia vienense, vivenciou, ainda na infância, a dissolução do Império Austro-Húngaro e, na juventude, a efervescência política e cultural da Europa Central, marcada pelas lutas revolucionárias do século XX, pelo fortalecimento da socialdemocracia e pela influência dos movimentos feministas. Foi nesse contexto que descobriu a psicanálise, concomitante à sua formação médica, integrando a terceira geração de analistas em formação na Escola de Viena, posteriormente interrompida pela ascensão do nazifascismo alemão. Marcada por sucessivos exílios forçados, Langer atravessou contextos históricos e culturais distintos, protagonizando ações de resistência humanitária durante a guerra civil espanhola, até encontrar na Argentina um novo destino – de cofundadora da Associação Psicanalítica da Argentina – APA. Marie Langer vivenciou a Guerra-Fria e o período sombrio dos regimes autoritários latino-americanos. Foi na condição de imigrante que, também por sobrevivência, escolheu silenciar suas convicções políticas. Evidenciamos a perspectiva crítica de Marie Langer ao falocentrismo patriarcal que influenciou a própria psicanálise, assim como o seu processo pessoal disruptivo, ao romper em sua maturidade com o próprio silenciamento em relação as instituições psicanalíticas “apolíticas” da IPA e APA que a validaram ao longo de sua trajetória profissional, mediante implicações de resistência ao autoritarismo imperialista estadunidense. Paradoxos políticos e institucionais que vigoram até hoje. Transformar essas memórias clínico-políticas em presença nos convoca a pensarmos o futuro que desejamos, em detrimento do mal estar de uma civilização distópica.
Resumo: Embora a psicanálise tenha produzido uma vasta elaboração acerca da maternidade, pouco tem se dedicado à experiência da maternidade vivida pelas próprias analistas. Este trabalho propõe uma reflexão inicial sobre a figura da analista-mãe, tomando como objeto de investigação o silêncio teórico que envolve essa condição e seus efeitos sobre a clínica, a formação e a vida profissional das mulheres que exercem a psicanálise. Parte-se da hipótese de que a escassez de pesquisas sobre o tema faz recair sobre cada analista a tarefa de elaborar, quase sempre de forma solitária, os impasses produzidos pelo encontro entre maternidade e clínica, dificultando a construção de referências teóricas e de espaços coletivos de sustentação dessa experiência. Questões como gestação, licença-maternidade, reorganização do setting, manejo da transferência, impactos do cuidado sobre a disponibilidade psíquica e os atravessamentos entre maternidade e exercício da clínica permanecem, frequentemente, à margem da produção psicanalítica. Ao interrogar esse vazio teórico, o trabalho busca problematizar quais experiências são reconhecidas como objetos legítimos de investigação na psicanálise e quais permanecem invisibilizadas, propondo que a maternidade das analistas seja reconhecida como um campo fecundo de produção de conhecimento. Defende-se, por fim, que teorizar essa experiência constitui não apenas um gesto de ampliação do pensamento psicanalítico, mas também uma forma de oferecer sustentação simbólica e coletiva às analistas em sua prática clínica e em seus modos de existir.
SALA I
I. Virgínia e Adelaide: amizade, refúgio e a invisibilidade da mulher negra na origem da psicanálise brasileira
Autores: Wallace Caetano Estevão e Fábio Luciano (Instituto Nebulosa Marginal e Faculdade de Tecnologia de São Paulo – FATEC-SP)
Resumo: Este caso de ensino discute a constituição da psicanálise brasileira a partir do encontro entre Virgínia Leone Bicudo e Adelheid Koch, articulando amizade entre mulheres, refúgio, racialização, transmissão e pertencimento. Tendo como instrumento principal o filme Virgínia e Adelaide (2024), o caso reconstitui o encontro entre uma mulher negra brasileira, pioneira da psicanálise no país, e uma psicanalista judia refugiada do nazismo, cuja presença foi decisiva para a institucionalização da formação psicanalítica em São Paulo. Propõe-se que essa relação seja lida não apenas como episódio biográfico ou institucional, mas como analisador privilegiado de processos de invisibilização de mulheres na história da psicanálise, especialmente de mulheres negras, bem como de formas de resistência, transmissão e sustentação subjetiva entre mulheres em contextos marcados por racismo, sexismo e autoritarismo. Voltado à formação em Psicologia, Psicanálise e áreas afins, o caso permite discutir memória institucional, ética da escuta, colonialidade do saber e atualização curricular, oferecendo narrativa, questões de análise, atividades pedagógicas e nota de ensino.
Resumo: Partimos do debate teórico e clínico que instiga a psicanálise a problematizar sua atualidade frente ao sofrimento psíquico contemporâneo. Terceira tópica, patologias do ato, clínica do vazio, clínica do trauma, estados-limite…: são diversas as denominações e recortes que vários autores têm lançado mão para tentar dar conta dos limites clínicos e teóricos de uma psicanálise dita clássica, cujo paradigma se fez pela neurose e seus mecanismos. Maria Teresa de Melo Carvalho e de Marta Rezende Cardoso são duas psicanalistas que se dedicam a pensar a constituição do psiquismo desde seus doutoramentos, entre as décadas de 80 e 90, realizados sob orientação de Jean Laplanche e desenvolvendo a Teoria da Sedução Generalizada (TSG). Nesses trabalhos germinais, as autoras se detiveram respectivamente nos estudos sobre o eu e o supereu, dando base, como pretendemos demonstrar, para o desenvolvimento de suas contribuições à psicanálise contemporânea. Encontramos nos textos de Carvalho o enfoque maior na clínica infantil e nas funções do adulto cuidador como auxiliar de tradução, num profícuo diálogo com Silvia Bleichmar. Cardoso, por sua vez, abordando diferentes clínicas, como da adolescência e dos estados limites, aprofunda sua perspectiva sobre violência e trauma. Destacaremos no percurso de cada autora as direções de seus pensamentos que questionam e apresentam respostas a impasses no interior da obra laplancheana.
Resumo: Melanie Klein em sua obra pontuou que a construção do psiquismo não é algo estável. Vivemos diariamente diante das oscilações que se dão entre as posições Esquizoparanoide e Depressiva. E então como pode uma dupla? Analista e analisando persistirem em terreno tão lamacento e escorregadio, mas ao mesmo tempo, tão fértil e rico. O objetivo deste trabalho foi desenvolver algumas reflexões sobre o movimento¹ das posições EP – D na dupla analítica. Se na primeira posição que marca o início do psiquismo, aparecem aspectos mais hostis, violentos e persecutórios. A figura materna divide-se em seio bom e seio mau. E na segunda, aos poucos, por voltas dos seis meses, o bebê vai desenvolvendo a capacidade de experenciar que a mesma mãe que falha é a que oferece leite, amor e alento. Como pode a analista suportar os ataques de um psiquismo primitivo e ao mesmo tempo comemorar os pequenos passos de sua analisanda em direção a um jeito de se relacionar mais próximo da troca e da parceria. E se a analista atravessado por aspectos de seu psiquismo primitivo dá de encontro com uma analisanda que também vivencia um momento mais enlouquecido? Seria fogo e gasolina? Em meu percurso com Melanie Klein há exatamente vinte anos atrás me deparei com uma mulher que me permitiu acessar a Psicanálise. E ao longo deste pude compreender que é no encontro entre os aspectos inconscientes da dupla analítica é que abre-se espaço para o novo que pode ser melhor mas também passageiro.
Resumo: A história da psicologia e da psicanálise no Brasil é atravessada por mulheres cujas contribuições permanecem, muitas vezes à margem das narrativas. Entre elas, resgatamos Madre Cristina Sodré Dória (1916-1997), educadora, psicóloga, religiosa e fundadora do Instituto Sedes Sapientiae. Este trabalho propõe um resgate de sua trajetória intelectual e política, tomando como eixo sua defesa intransigente da democracia, dos direitos humanos e da participação popular. Em um período marcado pela repressão da ditadura civil-militar, Madre Cristina fez da formação, da escuta e da ação institucional instrumentos de resistência, acolhendo perseguidos políticos e sustentando espaços de pensamento crítico quando o silêncio era frequentemente imposto pela força. A partir de pesquisa bibliográfica e documental, com destaque para a Carta de Princípios do Instituto Sedes Sapientiae, analisa-se como seu projeto de formação articulava conhecimento, ética e compromisso com a realidade brasileira. Particular atenção é dada às interlocuções estabelecidas entre o Sedes e movimentos sociais comprometidos com a justiça social, entre eles organizações ligadas à luta pela terra. Argumenta-se que seu legado ultrapassa os limites da educação e da clínica, oferecendo uma reflexão atual sobre o papel das instituições de formação diante das desigualdades e dos desafios democráticos do país. Ao revisitar sua obra e sua prática, buscamos apresentar a trajetória de Madre Cristina entre as mulheres que ampliaram os horizontes da psicologia e da psicanálise brasileira. Sua atuação evidencia a construção de um modo de pensar a formação e a psicologia profundamente implicado com as lutas sociais concretas, nas quais a produção de conhecimento se articula à defesa da dignidade humana e da transformação social.
Resumo: Este trabalho apresenta o estudo de um caso clínico com o objetivo de discutir as armadilhas da violência psicológica nos relacionamentos, utilizando como base o pensamento da psicanalista brasileira Manuela Xavier. Seguindo as normas éticas, todos os dados da paciente foram completamente alterados para proteger sua identidade. O caso acompanha uma mulher que vivia um relacionamento profundamente destrutivo, mas não conseguia perceber o abuso porque o parceiro nunca a havia agredido fisicamente. A partir da teoria adotada, analisamos como a sociedade ensina as mulheres a se responsabilizarem sozinhas pela felicidade do casal. O parceiro se aproveita disso para atacar a autoestima e a percepção da realidade da paciente, fazendo com que ela se sinta culpada por tudo. Sem uma marca física que comprove a agressão, a mulher passa a duvidar de si mesma e a acreditar que ela é a “errada” ou a “louca” da história. No espaço das sessões, o trabalho clínico buscou acolher essa dor e ajudar a paciente a enxergar essa teia invisível de manipulação. O foco foi fazê-la parar de buscar a aprovação do outro e redescobrir os seus próprios desejos e caminhos. Conclui-se que a escuta psicanalítica é essencial para que a mulher consiga dar nome ao que viveu e reconquistar o controle da sua própria vida.
Resumo: A transferência acompanha o surgimento da psicanálise e atravessa a obra freudiana, especialmente no que se refere à práxis clínica. Em Freud (1912), ela se articula ao complexo de Édipo; em Lacan (1968), ganha estatuto de Real, isto é, daquilo que escapa à simbolização. Embora distintos, ambos convergem na indicação da neutralidade analítica como regra da situação transferencial: o analista não conduz o sujeito por um saber prévio, mas sustenta as condições para que ele acesse seu próprio saber, sempre atravessado pelo não-saber e pela falta. Contudo, em clínicas marcadas pelo racismo, sexismo e classismo, torna-se necessário problematizar essa neutralidade. Ayouch (2025) adverte que, em certos contextos, a neutralidade pode converter-se em silenciamento diante das violências estruturais que atravessam o sujeito. Tal questão já havia sido percebida por Virgínia Bicudo (1910-2013), ao considerar a incidência do social no manejo clínico e afirmar, em Incidência da realidade social no trabalho analítico (2019), que os processos socioculturais participam da constituição psíquica e não podem ser retirados do setting. Nessa direção, Nogueira (2021) evidencia que o corpo negro é atravessado por significações inconscientes produzidas pelo racismo, fazendo com que raça, gênero e classe incidam sobre o corpo, a palavra e a transferência. Assim, tensionar a neutralidade não significa abandonar a ética psicanalítica, mas impedir que a escuta reproduza, sob a forma do silêncio, a desautorização histórica de mulheres negras e sujeitos marcados por violências estruturais. Trata-se, portanto, de recolocar a clínica diante de sua dimensão ética, política e situada, sem apagar singularidades
Resumo: O vaginismo constitui uma experiência física e emocional, na qual a possibilidade da penetração vaginal é vivenciada como algo profundamente doloroso, ameaçador e, muitas vezes, insuportável. O trabalho clínico com mulheres com vaginismo conduziume à descoberta de uma antiga e quase esquecida autora da psicanálise: Marie Bonaparte. Presente na cena psicanalítica a partir da década de 20, a autora, que fora analisada por Freud, publicou textos referentes à sexualidade feminina. Apesar disso, sua obra acabou sendo relegada a um lugar secundário na história da psicanálise. Um de seus conceitos me chamou a atenção pela semelhança na descrição das angústias das mulheres portadoras de vaginismo: o complexo de perfuração. Pouco conhecida pelo grande público, Bonaparte era sobrinha bisneta de Napoleão Bonaparte. Ao se casar com o príncipe George da Grécia e Dinamarca, tornouse princesa. Ficou muito conhecida nos meios psicanalíticos por ter sido a princesa responsável por salvar Freud das mãos dos nazistas. O complexo de perfuração seria o equivalente feminino ao complexo de castração para o menino. O complexo de castração levaria à inveja do pênis, já o complexo de
perfuração resultaria do medo da perfuração e efração do corpo, o que levaria à morte. Com uma teoria vinculada excessivamente à biologia, a autora foi duramente criticada nos meios psicanalíticos da época. A retomada contemporânea dos debates sobre a sexualidade feminina, recoloca em evidência a obra de Bonaparte, por tanto tempo esquecida, cujas reflexões revelam notável atualidade ao descrever a angústia das mulheres com vaginismo.
Resumo: A violência de gênero não começa nem termina no instante em que um corpo é ferido. Ela se inscreve antes, nos discursos que silenciam, nas relações que desautorizam e nas formas de poder que ensinam às mulheres a duvidar da própria palavra, do próprio desejo e no próprio direito de existir. Este trabalho parte da inquietação diante de uma violência que não se reduz ao ato, pois deixa marcas no corpo, na subjetividade e na possibilidade de uma mulher narrar a própria história. À partir da psicanálise, propõe-se um diálogo entre Lou Andreas-Salomé e o romance de Patrícia Melo, buscando pensar o que acontece com uma mulher quando seu corpo é transformado em território de violência e sua palavra encontra um mundo não está disposto a escutá-la. Salomé interessa pela maneira como sua trajetória permite pensar uma mulher que não aceitou ocupar o lugar que lhe era destinado: uma mulher que escreveu, pensou, desejou e produziu conhecimento, inscrevendo-se como sujeito de sua própria palavra. Em “Mulheres Empilhadas”, por outro lado, corpos de mulheres se acumulam, literal e simbolicamente, junto às histórias interrompidas e aos nomes que quase não permanecem. Entre Salomé e “mulheres empilhadas”, este trabalho sustenta uma pergunta: o que a psicanálise pode escutar onde a violência insiste em produzir silêncio? Pensar a violência de gênero pela psicanálise é recusar que o corpo da mulher seja o lugar onde sua história termina e sustentar, pela palavra, a possibilidade de que ela volte a ocupar o lugar de sujeito de sua própria história.
Resumo: O presente artigo toma a obra de Karen Horney como lente crítica privilegiada para interrogar os conceitos de feminino puro e masculino puro na teoria do amadurecimento de Donald Winnicott. Horney, ao denunciar o viés androcêntrico das teorias psicanalíticas sobre a feminilidade, deslocou o eixo explicativo da diferença sexual da anatomia para as condições culturais e relacionais nas quais a subjetividade se constitui, recusando a naturalização de hierarquias de gênero. A partir dessa perspectiva, examina-se a escolha vocabular de Winnicott, que associa o feminino à experiência do “ser” e o masculino à experiência do “fazer”. Argumenta-se que, ainda que o autor afirme que ambos os elementos estão presentes em todos os indivíduos, sua nomenclatura repõe uma gramática de gênero historicamente marcada, ecoando aquilo que Horney chamava de “ideal patriarcal da feminilidade”. Além disso, articula-se a discussão teórica à trajetória institucional da própria Horney, cujo testemunho sobre a violência de gênero na cultura e na psicanálise foi sistematicamente subjugado. Conclui-se que a leitura horneyana desses conceitos não apenas evidencia seus riscos essencialistas, mas também convoca a psicanálise contemporânea a uma tarefa de reparação histórica: renomear os fenômenos descritos por Winnicott com termos que não reproduzam binarismos de gênero, preservando sua potência clínica sem reiterar as hierarquias que Horney já denunciava.
Resumo: Este trabalho parte de um caso clínico de uma mulher marcada por uma relação abusiva e autoritária com o pai. O emaranhamento relacional ocupou o espaço de sua subjetividade, silenciando-a e sufocando-a, e encontrou expressão no corpo por meio de sintomas somáticos severos. Ao longo da análise, afetos interditados, como a raiva, deixaram de se expressar apenas no corpo e puderam ser reconhecidos e integrados, favorecendo o estabelecimento de limites e a preservação da subjetividade. No trauma relacional, a experiência traumática permanece inscrita tanto no corpo quanto nos modos de estar com o outro. Em diálogo com Paula Heimann, propõe-se compreender a contratransferência como um instrumento de reconhecimento que antecede a simbolização, possibilitando que experiências antes impensáveis sejam reconhecidas e, gradualmente, simbolizadas. Durante o debate de uma versão anterior deste trabalho, apresentada na Conferência da IARPP, em Toronto (2026), a psicanalista Nira Kolers contribuiu para o aprofundamento desta reflexão ao afirmar que as vozes das mulheres são frequentemente “silenciadas ou, mais precisamente, sufocadas antes mesmo de poderem ser expressas ou pensadas”. Em diálogo com Virgínia Leone Bicudo, que evidencia como estruturas de dominação social atravessam a constituição da subjetividade, o caso permite compreender a misoginia como uma estrutura relacional que naturaliza o silenciamento da experiência feminina e restringe a construção da subjetividade. Nessa perspectiva, a clínica psicanalítica constitui um espaço ético e político no qual o reconhecimento precede a simbolização, possibilitando que mulheres encontrem palavras para suas experiências, recuperem sua voz e ocupem lugares no mundo para além da submissão.
Resumo: Em um Congresso Psicanalítico, na Cidade do Rio de Janeiro, Isildinha Batista Nogueira, participante da mesa, com outros convidados, abre sua fala, nos dizendo: “O racismo atravessa a todos, negros e brancos”; neste sentido, a realidade das mulheres em situação de rua, escancara, as desigualdades produzidas pelo racismo, que historicamente desumaniza determinados corpos e modos de existência. Em Racismo e Sexismo brasileiro, Lélia Gonzalez, nos advertira, sobre a “neurose da cultura brasileira”, ambas pensadoras, fornecem elementos chaves, para pensarmos a constituição psíquica do sujeito negro. O presente trabalho, é um recorte da experiência, da escuta às mulheres em situação de rua, através da Equipe do Consultório na Rua, do Município de Macaé-RJ, enfatizando, a necessidade de intersceccionalizar a prática psicanalítica, corroborando, para uma práxis clínica e ética, possível ao exercício do cuidado. Do olhar do Outro, o estereótipo se constrói, logo, o corpo negro é aprisionado e colonizado, reforçando a égide fundante da estrutura social brasileira: um país marcadamente racista.
Resumo: Em contextos marcados por assimetrias nas relações de gênero, a manifestação da raiva por mulheres frequentemente representa não apenas um conflito intrapsíquico, mas um risco concreto de perda do vínculo e do pertencimento. Este trabalho parte da experiência de uma clínica relacional com mulheres para investigar como a socialização de gênero participa da constituição e da simbolização da raiva e do ódio. A partir da apresentação de um caso clínico, discute-se o percurso de uma paciente cuja dificuldade em reconhecer e sustentar experiências agressivas estava profundamente vinculada ao medo de perder vínculos significativos. Ao longo do processo analítico, tornou-se possível reconhecer que a analista também ocupava uma posição sustentada por um ideal de neutralidade que, naquele campo relacional, mostrou-se insuficiente para acolher experiências marcadas pelos efeitos da socialização de gênero. Em diálogo com contribuições tradicionais de psicanalistas como Sabina Spielrein e Karen Horney, bem como com contribuições contemporâneas de Jéssica Benjamin e Sandra Tobírio, proponho refletir sobre a hipótese de que a clínica relacional com mulheres demanda reconhecer que os efeitos do gênero atravessam tanto a subjetividade da paciente quanto a da analista, permitindo que afetos historicamente silenciados encontrem, na relação analítica, uma morada possível.
Resumo: Em um evento de psicanálise ocorrido em 2025, após concluir a apresentação de um trabalho a respeito do atendimento clínico de pessoas brancas por analistas negras, fui alvo de uma série de ataques racistas cometidos por uma analista branca. A denunciei frente à todes colegas que ali estavam, e, como resposta, recebi centenas de abraços. Ao final do dia, eu fedia. É fato que pessoas negras são tomadas por fedidas, resultado de uma inversão histórica que toma o efeito (mau cheiro) pela causa (condições subalternizadas de sobrevivência desde os tempos escravocratas). Esta inversão produz uma norma de “lugares naturais” para aqueles que cheiram bem e são bons – os brancos, e para aqueles que são malvados e cheiram mal – os negros. Mas, diferentemente, meu cheiro passava imperceptível aos olfatos brancos. Entendi: eu fedia a soma do perfume das intenções brancas de cuidar do cheirinho que haviam sentido de sua própria responsabilidade. Neste texto, empresto esta minha experiência para, na companhia de Isildinha Baptista Nogueira (2021), Neusa Santos Souza (2021) Lélia Gonzalez (2020) e Grada Kilomba (2019), refletir acerca do verdadeiro odor produzido pelos gestos sentimentalistas que atuam no sentido de cuidado enquanto revelam a expectativa de docilização e dominação senhorial. Concluo que, ao adentrar no lugar naturalmente branco de uma certa psicanálise no Brasil, meu corpo foi posto à carregar excrementos brancos imateriais até um lugar que se entende ser o meu: a lata de lixo. Porém, como afirma Gonzalez, “o lixo vai falar, e numa boa”. Aqui, o lixo escreve.
Resumo: A teoria de Melanie Klein sofreu e continua sofrendo sucessivos apagamentos na contemporaneidade, por razões políticas, técnicas e epistemológicas complexas. Refletindo criticamente sobre esse panorama, propomos uma breve reavaliação dos ecos kleinianos silenciosamente presentes nas primeiras obras de autoras feministas estadunidenses, como Nancy Chodorow, Jessica Benjamin, Muriel Dimen, Virginia Goldner e Adrienne Harris. Nesse sentido, recuperamos a dimensão histórico-política das barreiras ao pensamento kleiniano instituídas nas vertentes da Psicologia do ego e da Psicanálise Relacional, discutindo a incorporação indireta de elementos da teoria kleiniana através de sua influência nas teorias de Winnicott, referência comum e significativa para todas as autoras. Em seguida, assinalamos os elementos teóricos kleinianos latentes em suas teorias, presentes de modo distinto entre cada uma, mas tendo como elemento comum o conflito intrapsíquico/intersubjetivo ambivalente entre partes clivadas, excindidas e projetadas do self. Também reconhecemos, nesse processo, a progressiva e declarada incorporação de perspectivas kleinianas por Chodorow e Benjamin em sua teorização posterior. Por fim, consideramos a importância da fecundidade mútua no diálogo dessas teorias. Se, por um lado, esse diálogo permite enriquecer a Psicanálise kleiniana com perspectivas crítica e politicamente informadas sobre gênero — não enquanto essência interna, mas como processo relacional e contingente, intimamente relacionado à constituição do self e à expressão de seus conflitos —, por outro, pode conferir maior sustância metapsicológica a algumas teorias das autoras no âmbito da clínica psicanalítica, a partir da consideração sobre as fantasias, temores, desejos, relacionadas à constituição dos objetos internos na phantasia infantil.
Resumo: A história da psicanálise é marcada pela contribuição de diversas mulheres cujas produções teóricas e clínicas nem sempre receberam o mesmo reconhecimento conferido aos seus contemporâneos homens. Na clínica psicanalítica com A história da psicanálise é marcada pela contribuição de diversas mulheres cujas produções teóricas e clínicas nem sempre receberam o mesmo reconhecimento conferido aos seus contemporâneos homens. Na clínica psicanalítica com crianças essa questão adquire especial relevância, uma vez que a predominância feminina costuma ser interpretada como expressão de uma suposta afinidade dita natural entre mulheres, cuidado e infância. Parte-se da hipótese de que a presença majoritária de mulheres nesse campo não decorre de algo inato ao feminino, mas de processos históricos e sociais que vincularam as mulheres às práticas de cuidado, educação e maternagem. Este trabalho problematiza essa associação, por meio de revisão bibliográfica, ao discutir a história da psicanálise com crianças a partir de uma perspectiva crítica sobre gênero e cuidado e o silenciamento de pioneiras da psicanálise. Nesse percurso, destaca-se a atuação de psicanalistas como Sabina Spielrein e Hermine HugHellmuth, pioneiras cujas contribuições para a compreensão da infância, da técnica psicanalítica e da clínica com crianças foram, durante muito tempo, secundarizadas ou invisibilizadas nas narrativas oficiais da história da psicanálise. Argumenta-se que a predominância feminina na clínica infantil não resulta de uma aptidão inerente às mulheres, mas de processos históricos, sociais e simbólicos que também contribuíram para a invisibilização de importantes autoras. Ao resgatar essas trajetórias, se propõe uma reflexão crítica sobre as relações entre mulheres, cuidado e produção de conhecimento na história da psicanálise.